Marcia Tharakan nasceu no Rio de Janeiro, no dia 24 de janeiro. Poeta e advogada pós-graduada em Direito Ambiental, publicou em 2025 o seu primeiro livro de poesia, intitulado “Justiça Poética”. Participante do movimento LaB Poético, coordenado por Igor Calazans, também é coautora de antologias poéticas. Atualmente vive em Niterói, Rio de Janeiro.

Tenho pressa

Tenho pressa
Não me impeça de burlar as horas
Vou na frente do agora
Tento chegar a tempo
Lento é o sofrimento
Pungente é a demora
Perfura o pensamento e extirpa o intento
Maltrata o estômago e corrói as enzimas
Um pouco mais adiante
A vida me espera na fila dos contingentes
Na outra ponta da esquina
Ou no outro continente
Indigentes estendem a mão
A sede seca a expectativa
A vida é urgente
Urge remover os matadores
Que querem matar de fome essa gente
Urge devolver a vida dos viventes
Não me pare no final do ponto
Ou no ponto final desta história
A vida que grita tem pressa e não demora
Latente é a dor da morte de fome
Ultrajante é a fome que leva à morte
Tenho pressa e não me impeça
De furar a fila de espera
Dessa gente faminta e extinta
Deveras esfomeada
E sedenta de pão e justiça.

Redenção

Sob as sombras da noite vazia
Me reporto aos meus egos e apegos
Enfatizo meus rasos anseios
Sacramento meus poucos segredos

Nos lampejos da minha santa euforia
Há dias em que caso com a lua
Aluada, uso os anéis de Saturno
Enternecida, me deleito em lençóis profundos

Rogo pela redenção dos pecados
Me livro da falsa dialética
Refaço os textos sem rima
Enredos de uma vida poética.

Solitude

Fortes indícios de solitude
Foi o diagnóstico auferido
No exame da consciência
A aparência não engana os sentidos
Uma dose diária de pôr do sol
É indicação que nunca falha
A solitude não é solidão
Ao seguir em direção alhures
O destino e o querer se comprazem
Desfazem os nós dos sapatos
Abraça-se a redenção
Carrega-se a convicção de que a vida é passagem
Bastando a certeza do vinho e do pão
A solitude, uma cesta de flores do campo
O amor próprio e a bagagem de mão.

Pichação

Odeio muros vazios
A falta de texto me afronta
A boca cerrada, calada
Engole gemidos sufocados
Pelas ruas, um silêncio derramado
Deixa um rastro de torpor pelo chão
Espalhando vertigens
Impregnando de aflição
Odeio a falta de texto
E tudo que me impede
De perder o sono
Prefiro a pichação.

Justiça Poética

Seria uma injustiça com a poesia
Deixar suas fratura expostas
Suas garras desafiadas
Suas estrofes divorciadas
Sua cara de redenção
Não é justo e nem de bom-tom
Tirar o doce da sua boca
Barrar sua boca de batom
Seria um injustiça tirar a poesia da boemia
Ferir a sua sensibilidade
Violar a sua intimidade
Descartar a sua intuição
Seria mesmo uma grande injustiça
Tratar a poesia como a vilã da melancolia
Condená-la pelos amores desajustados
E deixá-la numa prisão
Dito isso:
Por uma questão de justiça poética, vou assegurar à poesia,
por via de decreto:
O seu direito à defesa, a veracidade dos seus versos
e a sua livre manifestação.

*Poemas do livro “Justiça Poética”, Editora Itapuca, 2025.