João Rodrigo Costa nasceu em Natal, Rio Grande do Norte, em 27 de julho de 1985. Potiguar, radicado em Niterói (RJ), é poeta, radialista e mestre em estudos da mídia. “Paciente desejei a morte” é o seu primeiro livro de poesia.
natureza morta
era um castelo
dava pra ver
palavra por palavra
desmoronando sobre
um chão frio de
cerâmica cozida
não recordo dos
naipes silábicos
mas o estrondo
foi livresco
aquelas cartas arrotavam
nódoas de tinta
transferidas por mãos
laboriosas e tristes
era preciso estar lá
para possuir o susto
o cheira da vela
a cal desbotada
o sono profuso
crestavam suspiros
diante do voo
mesmo que os
cristais cantassem
um sopro de ruína
não haveria tempo
para remir-se
do espanto tardio
uma grande pedra
grande repousava
solene à jusante
do filamento de rio
que acariciava
a pele do edifício
via-se sombras
e mais sombras
e mais pedras
e maios paus
via-se chuvas
corpos e cheiros
via-se uma ruma
de bobagens inscritas
na tábua dos acontecimentos
era preciso crer
era preciso crer porém
com a fé das abelhas
lagartas e beija-flores
era preciso crer
como as flores
como as laranjeiras
e como os manguezais
faltava porém natureza
morta naquela miragem
corrompida pela tragédia
só aí então que
o dia ficou lilás
as crianças voltaram
das escolas primárias
e o guia das almas
pôde deslizar sereno
pela orla de copacabana.
entre bach e lavoisier
dentro do corpo oco
um buraco na fronteira
entre o verme e a tripa
o ímpeto violento da semente
em estado de latência
a dinâmica urdida
de improváveis formas
de vida
é uma balada
contrapontos bachianos
em garras de lobos
lavoisierando a arte
e a pedra
um retrato emudecido
sobre mucos
sulcos
e instintos deliciosos
é como eu vejo.
as canções do corpo
naquele dia
desabotoou-se uma florada de cristais
dispersos sobre um couro roburescido
o sangue que jorrava nos igarapés
não sem antes tingir rios e beiras
lembrava um festim ou uma menstruação
mas o que importa são os horrores e suas falhas
um carburador antigo em seu último esforço
zunia como o peito de uma criança asmática
uma criança asmática conhece das canções
do corpo seu ritmo e melodia orgânicos
havia tentativas diárias rotineiras e cotidianas
e o cansaço se sentava à mesa para o jantar
era uma presença incômoda e poderosa
impunha o respeito que só o medo saber impor
o medo era sempre o prato principal daquela refeição
mas aos poucos os cristais eram varridos
e uma injeção eletrônica assumia o lugar silencioso
da engrenagem soturna impressa naquele dia
fora só praticar o relevo sistemático com o qual
já estavam acostumadas todas as células
que compunham o organismo mortificado
e por fim se pôde repousar na paz daqueles que escapam.
aqui agora
estou vivo
mas as moscas
já rondam meu corpo
os urubus espreitam
do alto dos postes
vermes multiplicam-se
com agonia
e os inimigos se apressam
em desprender as gaiolas das champanhes
parentes choram
e amigos silenciam
está tudo pronto
pra vida seguir adiante
e a história seu curso
tudo segue
mesmo que nada avance…
*Poemas do livro “Pacientemente Desejei a Morte”, Editora Urutau, 2024.