Talita Feuser nasceu em Paranavaí, Paraná, em 1986. Poeta, escritora, advogada e atriz, graduada na Escola Municipal de Teatro de Londrina e na Escola de Atores Wolf Maya, é autora do livro Cenário Implícito (2020, ed. Urutau). Integrou o Núcleo de Dramaturgia do Sesi-RJ, sob coordenação de Diogo Liberano (2020), e o Núcleo de Dramaturgia do Sesi-PR (2021), sob coordenação de Ligia Souza. No cinema, protagonizou o longa “Um e oitenta e seis avos”, atuou no longa “Jovens Polacas”. Atualmente vive no Rio de Janeiro.

 

sobriedade

um poeta ébrio
não, perdão
um poeta
de cabelos brancos
agarra-se às paredes do mundo
buscando a sustentação
que as suas pernas não lhe dão
(e nunca deram)
observa a manada
e dispara setas desesperadas
um último suspiro
súplica
ou oração – quem sabe
(da única fé que conhecera):

.                                     ainda há tempo para o amor?

los caeiro

estou porque sou
e nada mais importa
dá-me luz, ó deus do tempo!
para ultrapassar a homeostase
enfiar a agulha na amígdala
atravessar
o que nem sei
se de fato existe em matéria viva
por que vivo sem nem saber se vivo
o instante que diz que devo ir além
de fronteiras que desconheço
de barreiras nas quais inexisto
e que de fato insisto em – embarreirar-me –
tornar-me barro da existência primeira
molde de mim que nem sei se sou
existo porque desconheço
e agradeço o não saber
embora existia porque sou
o que nem sei
e nada mais importa
ó deus do tempo, dá-me-luz
para encerrar o verbo
enquanto é tempo de cantar

aterrissagem

encarar
o abismo
pra ver se lá
tem chão

*
sua língua orbita o meu seio
suas mãos circulam
satélites entregues
à força gravitacional
da carne
meu mamilo o epicentro
da nossa Terra
trêmula
e molhada

*Poemas do livro “Cenário Implícito”, Editora Urutau, 2020.