Gennadiy Nikolaevich Aygi, também transliterado como Guenádi Nikolaievitch Aigui, nasceu em Chuváquia, na Antiga União Soviética, em 21 de agosto de 1934. Poeta, escritor e tradutor, começou a escrever poemas em 1958 originalmente em chuvache, traduzindo pessoalmente para o russo. Por questões políticas, suas obras foram ignoradas durante muito tempo, porém circulava em traduções húngaras, polonesas, sérvias, tchecas e brasileira, graças ao esforço de Boris Schnaiderman, em parceria com Haroldo de Campos e Augusto de Campos. Somente após a abertura da União Soviética, período de Mikhail Gorbachev, seus escritos passaram a ser reconhecidos e lidos por seus compatriotas. Guenádi Aigui faleceu em Moscou, Rússia, no dia 21 de fevereiro de 2006.
Silêncio
1
no clarão
da angústia desfeita em pó
conheço o desnecessário como os pobres conhecem a
roupa última
e os velhos trastes
e sei que este desnecessário
é o que o país precisa de mim
confiável como um acordo secreto
o calar-se como vida
e para toda a minha vida
2
no entanto, o calar-se é doação, e para mim mesmo: o
silêncio
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acostumar-me a tal silêncio
que seja como o coração que não se ouve bater
como a vida
que pareça um de seus lugares
e nisso eu sou – como a Poesia é
e eu sei
que meu trabalho é árduo e existe para si mesmo
como no cemitério da cidade
a insônia do vigia
O Ruído das Bétulas
e eu mesmo – farfalho:
mas talvez Deus…”
murmúrio nas bétulas:
“morreu…” –
e nós somos
a fragmentação – continuada? –
e por que
não seria?
solitárias e vazias de dissiparão as cinzas…
(o murmúrio das bétulas…
no mundo todo farfalhamos…)
e de novo
há de Ressuscitar?.
… nem chega a doer:
como se fosse para sempre… –
como sobre isto – o ruído
(como que abandonado – o ruído do outono)
Vista com Árvores
Noite. Quintal. Toco em uns pássaros nos ramos – e eles
não saem voando. Formas estranhas. E há qualquer coisa
de humano – nessa compreensão muda.
Entre as figuras brancas – a observação é tão viva e com-
pleta como se visse toda a minha vida aquela única – do
alto das árvores escuras: alma.
Recordação Repentina
um cão através dos centeios
corre
como entre os gritos
de toda – repentina – a infância
em meio
ao sol que declina
Sem Título
e no campo anda um homem
é como a Voz e a Respiração
entre as árvores que parecem esperar
pelo seu primeiro Nome.
Captura do Verão
de repente:
(um comprido “algo” muito “de repente”) –
jardim – tal qual visão: brilhando em quartzo!
joia dos caminhos –
faíscas – deste jardim contra as janelas – mais brumosas
quente nas profundidades
na ruela, clara, a carroça
mais alto – nada além do vento onde estão os pássaros e
as bandeiras! –
fantasmática, a ponte – a poeira quieta – e quente e tá-
bua.
e o rio contorna
dois povoados em sombra na distância –
e a noite cai… –
tão escondida como um coração
Na Doença de um Amigo
Para uma pintura de Leonardo Daniltsev
como se tivéssemos visto Deus em sonho – e isto vem à
memória
recompondo-se numa visão esquecida
(desagregando-se ou recomeçando)
da neve nas antigas colinas e estradas
de fala-vestes da infância
do rosto dos animais de sorriso e choro – ao lado – o um-
bral dos amigos:
vocês – meus queridos: ó pintura, vida
Imediato – Inexprimível
(belo como uma refeição de pobres)
*Poemas do livro “Silêncio e Clamor”, Editora Perspectiva, 2010.
Traduções de Boris Schnaiderman e Jerusa Pires Ferreira