Dora Ferreira da Silva nasceu em Conchas, São Paulo, no dia 1º de julho de 1918. Poeta e tradutora, ganhou três vezes o Prêmio Jabuti de Poesia, além do Prêmio Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras, em 1999. Foi a primeira tradutora de Carl Gustav Jung no Brasil. Também traduziu para o português a obra poética de Rainer Maria Rilke.  Nos anos 1960 fundou e dirigiu ao lado do marido, o filósofo Vicente Ferreira da Silva, a revista Diálogo. No final da década de 1970, criou a revista Cavalo Azul. Em 2003 fundou o Centro de Estudos Cavalo Azul, que teve como participantes Cláudio Willer e Rodrigo Petrônio. Seu acervo pessoal está sob tutela do Instituto Moreira Salles. Dora faleceu em São Paulo, no dia 6 de abril de 2006.

Para o ausente

Basta de chorar por-mim-sem-ti:
a morte escolheu-te de repente
e a mim não escolhe
nem mesmo agora.
Dois olhos brilham nos cardumes estelares
e uma voz da natureza
arrulha
numa rola.

Urge erguer-te
da laje fria de nunca haver-te olhado
um simples dia. Urge espelhar-te
dessa região inacessível
ao coração
antes que se finde em mim o canto
exilado
.                 seu tato secreto.

Para Clarice Lispector

Anjos cantam tua eterna alegria.
Aos que se sentem sós mandas dizer
que doce na terra é o vinho da música
e o silêncio, sabor.
Foste partitura, que só os anjos souberam decifrar,
nascida de um fragílimo novelo –
teus cabelos claros –
que só os anjos puderam destrançar.

Ouves além das lágrimas antigas
essas lágrimas que só os anjos foram capazes de enxugar.

Agora

Não a imagem transeunte
– bela embora – fruto
nascido sem que a flor se
.                         doe e se transforme.

No ambíguo reino da verdade,
só pasmo e inconsistência:
não de quem sonha
.                          à beira do vazio,

mas sonho do sonho
de tantas formas e carências
.                        onde o sangue habita.
Sonho e sangue, irmãos
.                            que se debruçam
à beira da cisterna, onde arde
uma pequena chama.

Erótica

O seio da lua
aflora teu seio
desata-se o sangue em rio
de obscuros meandros
à beira de agapantos
cerram-se as pálpebras
sobre o desmaio das pupilas
eis que respiras no meu sono
e em ti desperto
enredada nas liana da tua alma
na lisura das águas
a noite se mira.
Mordo meu desejo em teus cabelos.

Dois instantâneos

I

Vi um anjo de revólver postado numa esquina.
– Boa noite, meu anjo da guarda, eu disse.
E ele: Não sou seu anjo
mas o anjo da guarda do guarda-noturno.

II

Na Avenida, o passarinho cantava
dentro da gaiola suspensa na parede.
Era uma oficina de carpinteiro. Fazia frio.
– É um canário da terra?, perguntei passando.
– É um canário do Reino, responderam.

Heracliteana

O tempo é uma criança
que o eterno em sua dança
balbucia
.               sobre o abismo
criança tão eterna
.               quanto a dança do som
seu vocabulário reversível
.               perdulário de rimas
que anima esse eterno movimento
.              sopro do vento e um centro fixo:
poço do infinito.

*Poemas do livro “Poesia”, Companhia das Letras, 2003.