Lucas Argel nasceu no Rio de Janeiro, em 20 de julho de 1988. Poeta e tradutor, é formado em Música pela Unirio. É cantor e compositor dos grupos Samba Sem Fronteiras e Orquestra Bamba Social. Como escritor, tem livros de poesia publicados no Brasil, em Espanha e em Portugal, sendo semifinalista do Prêmio Oceanos 2017. Desde 2012, mora no Porto, Portugal.
O SERVIÇO POSTAL DO INFERNO
também envia mensagens para fora.
mas devido à impossibilidade física de se sair
do Inferno
para entregá-las,
elas acabam chegando na terra
na forma de alarmes de carro
que disparam sozinhos
de madrugada.
NO INFERNO ATÉ HOJE NINGUÉM MORREU
mas estima-se que dentro de muito pouco tempo
após uma eternidade de anos de pesquisa científica
a medicina do Inferno finalmente descobrirá
a cura para a vida.
O ROCK ‘N’ ROLL NUNCA FOI MODA NO INFERNO
especialmente depois que os metaleiros
começaram a chegar por lá
com suas camisas, colares e tatuagens
representando Satã.
assim como os souvenirs de Buda na Tailândia.
isto foi tomado pelos locais
como algo de extremo mau gosto.
QUANDO CHEGA UMA CRIANÇA NO INFERNO
há um que sempre diz, em protesto:
“nenhuma criança jamais
terá sido má o suficiente
para merecer estar aqui!”
e outro logo faz coro, indignado:
“as crianças são inocentes por definição!”
alguém ainda tenta contemporizar:
“poderão até ter tido maldade nas ações,
mas nunca nas intenções…”
enquanto isso, entre uma chibatada e outra
de um demônio entediado,
minha professora de matemática do 6º ano
deixa escapar uma gargalhada.
*Poemas do livro “fui ao inferno e lembrei de você”, Editora 7 Letras, 2019.