Catarina Costa nasceu no Rio de Janeiro, em 1996. Poeta e artista visual, também trabalha com edição, design gráfico e ilustração, além de oferecer cursos e oficinas literárias de poesia. É curadora do Sarau CEP 20.000, no Rio de Janeiro.  Publicou seu primeiro livro Fluorescentes em 2022 pela editora 7Letras.

Deus estrategista

Ontem uma ratazana invadiu meu quintal
morta,
despertei quando ouvi

o baque.

O mundo sempre foi equivalente
ao seu próprio horror

O fim trágico da ratazana é
uma das raras amostras de acidente

Após limpar as marcas da defunta
li a notícia de uma moça e
três crianças laicas de origem
desaparecidas

Quisera eu achar meu estilete e
encarar a face súbita da ratazana
para em seguida agir
como um deus estrategista

Abrir com afinco sua barriga
o baque final seria:

surgir a moça e
as três crianças
de dentro da ratazana aberta
estremecida.

Órfãos de cães

Neste mês os cães latem muito
não investigam tal fenômeno
as árvores seguem com
a fisionomia triste
pouco pilosas nas raízes
senhores anônimos em volta
batucam, batucam, batucam
a cadência da mosca
ver tudo sem ser vista
crianças ladram órfãs de cães
ao redor dos senhores
árvores tristes

Dois esqueletos fluorescentes

Já flagrei meus pais deitados na cama
desfigurados em esqueletos
é uma reminiscência de infância
uma espécie de amuleto

Os ossos ornados por dezenas de insetos
eu sem celular e talvez por isso
preferi abraçá-los nus
enlanguescidos

Frente a frente meus pais
brilhavam fluorescentes
iluminando o teto e a testa da
criança arrebentada de amor e susto

Eu pouco entendia de miasma e magia
até hoje a família se regozija
em cambalhotas primitivas

Meus pais dois esqueletos fluorescentes
me proveram com complexos de luz e
miopia

Luvas ginecológicas luvas arquivistas

Repare no coquetismo
que há nas luvas ginecológicas
e nas luvas de arquivistas

desloque sua atenção
dessas mãos quentes e frias

observe somente
as luvas transparentes

borrando os dedos
oferecendo toda calma
necessária para eles saltarem

tateando o fim e a origem
tão próximos e distantes

as luvas protegem
o que há por baixo
dessas mãos quentes e frias

evitam um possível excesso
de susto ou abuso

sentem o silêncio
de ofício discreto

depois de zelarem por nós
e penetrarem o escuro
essas luvas pousam no lixo

ignoram tudo que tocaram
relaxam feito deus
ao manuseio da vida

Um gesto

Acontece de maneira predatória
e não menos simbólica
Meteram os dedos
dentro dos meus
Um gesto sempre acontece
no limiar de desejo e violência
sendo eventualmente trágica nossa tentativa
de compartimentá-los
A suspeita varia em decorrência
de quem está na margem
e quem está no eixo
Às vezes por timidez, vaidade ou vontade
talvez eu rejeite ou acate
Pergunto se assim
despida,
uma moça como eu incita ou explica
menos ainda se da autora
se o corte do braço foi impulsionado
por uma viga
Se foi de rebeldia ou amor
quando, onde e como
ela morreu
ou se nasce, se nasceu
e se viva implora para ser
sublinhada
não importa se em público
ou anonimamente

Não há importância
se esta ou outra moça indiferente
atrás do balcão
volta ou vai para algum lugar
dentro
ou além do texto
Não há de fato importância
se as luzes estão acesas ou apagadas
no quarto de um país latinamente
desesperado
Onde compartilham o espaço:
antidepressivos, livros
dildos, contas e calcinhas
e a madrugada atua como mãe

Não dorme,
o que rutila
desperta,
afora os gestos
na tela de um smartphone

*Poemas do livro “Fluorescente”, Editora 7 Letras, 2022.