Luciene Nascimento nasceu em Quatis, no Rio de Janeiro, a 24 de junho de 1995. Poeta, advogada e pesquisadora, é formada em Direito pela UFF- Volta Redonda (RJ) e pesquisadora em Literatura e Cultura pela UFBA Salvador (BA). Também é maquiadora e retratista. Atualmente vive de sua literatura entre Salvador e Recife. Escreve sobre identidade e estética da mulher negra e realiza palestras sobre o tema. Seus vídeos de ‘pedagopoesia’ acumulam mais de cinco milhões de visualizações na internet. Foi vice-presidente da Comissão de Igualdade Racial da OAB Barra Mansa (RJ) e palestrante TEDx. Foi apontada pela Revista Galileu como inspiração de novas gerações na literatura (Globo, 2018) e Vencedora do II Prêmio Dandara e Zumbi dos Palmares na Categoria Comunicação.

COPO

Sobre este corpo e o que faço com ele
já venho há um tempo tentando praticar
a política da boa vizinhança
do copo meio cheio.
Acordar apertada pra fazer xixi
e decidir pensar: como este corpo é incrível
segurando esta válvula bem fechadinha
até que meus olhos se abrissem
e eu tivesse consciência
.      dos meus movimentos.
Estes rins
aguentando firme
mesmo eu tendo a certeza
de não ter bebido água
.     suficiente
ao longo de toda
.     a vida.
Este corpo é bravo,
é resistente,
um universo complexo e potente
preserva uma habitante que já foi ingrata
e esse tipo de pendência que vai mais
.     ter registro nesta pele,
nesta mente.
E quando este corpo tem
tem a oportunidade de tocar outro
ele faz, por empatia, reverência
e procura ser gentil.
Este outro universo que me toca é bravo
e também aguentou até aqui.
Que direito tenho eu de fazer
.       minha convicção
pertencer àquela pele,
àqueles rins,
cujo dono pode ter tido o trabalho
de regar melhor que eu os meus?
Que direito tenho eu sobre o cabelo dele,
sobre o trabalho dele,
o sorriso que não me deu?
Quem autorizou o meu universo
.     a julgar o dele
e se me outorgo este poder,
.    então por quê?
ao que é humano de mim
.    e me limita o universo
deito a compreensão
aquela mesma que deito sobre
a minha imaturidade com a vida,
“é parte do processo”.
Quando o corpo do outro
.      me limita
se permito, me arrependo
peço perdão ao meu próprio corpo
e procuro não incorrer
.    no mesmo equívoco
numa próxima vez.

CENÁRIO

A lua crescente,
quando termina o trabalho da noite,
deita de dia na face de quem sorri
com jeito de firmamento…
A mansidão exuberante de um sorriso
faz a lua, com sono,
confundir um rosto alegre
com o céu.

TRAVESSEIRO

É lindo, pretinha, curtinho seu cabelo
ele cresce, mas encolhe
e é assim mesmo.
– Mas não balança que nem o dela.
Você tem travesseiro. Sorrio; explico:
No ônibus, quando for dormir
com a cabeça na janela,
é que nem algodão,
sorte a nossa vir assim.
Já sentiu?
Faz assim:
Ponho a mãozinha esquerda dela no meu algodão
e a mãozinha direita dela no algodão dela.
A gente ri.
– Mas não balança, né?
Mas, pretinha, a gente quer coroa mole pra quê?
É firme!
Esse nosso cresce pra cima,
que é pra indicar o tamanho da nossa sorte.
– Grande, até lá no céu?
Até lá no céu.

PRESSENTIMENTO

Um dia vou escrever um livro
que fale de amor e poesia
e que tudo de mais lindo neste mundo
caiba em suas páginas.
Quero fazer pousar sobre as folha
uma leveza de sentidos
que se mescle aos seus
e quando você o estiver lendo
carregado pelos pensamentos do dia,
já curvado pelas cargas da vida,
vai sentir o gosto da fragrância
de toda aquela pureza tão leve
e vai voar.

*Poemas do livro “Tudo nela é de amar”, Editora Sextante, Selo Estação Brasil, 2021.