Francisco Orban nasceu no Rio de Janeiro (RJ). Poeta, jornalista e Mestre em Comunicação e Cultura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro,  foi vencedor do prêmio Mar Absoluto – Cecília Meireles, da União Brasileira de Escritores, Estaleiros de vento (Orobó, 2005), finalista do prêmio Jabuti 2006, entre outros. Em 2016 publicou sua obra reunida pela editora Kazuá, com o título No país dos estaleiros.

Conselho na noite

Pegue um pedaço da noite
e com ela faça um verso
As cidades nascerão
de dentro das palavras

Quebração

Arrastavam pelo mar
as redes com a quebração da aurora
E esse era sempre o enredo
de suas vidas caladas

Nom mar que não tem encostas
nem cercas em suas jornadas
traziam para salgar
os peixes que o mar deixava

Usando na salgação
as suas vidas salgadas

Redes

Estes navios não seguem
o curso de um rio
Enroscados nas redes que o enredam
não ousam pensar-se
como veleiros passageiros.
No descampado mar que os acolhe
não se dão conta que é a si mesmos
que entornam
ao planar pelo acaso
do que é apenas ensaio
mas que pensam ser destino

Enseada

Eu a despi pouco a pouco
uma mulher tão linda
que tinha o rosto de um rio
Nos olhos as luzes do porto
nos seios toda suada pelo
alvoroço e abandono
chamava-me de meu amor
e o mar era nossa enseada

Arresto

Os poemas fazem o arresto
das coisas que não tem preço
como os telhados das tardes
folheados pelos dias

*Poemas do livro “A colheita da água”, Rio de Janeiro, 2019.