Miodrag Pávlovitch nasceu a 28 de novembro de 1928, em Novi Sad, capital da província de Voivodina, na Sérvia. Considerado um dos maiores poetas sérvios do pós-guerra, foi duas vezes nomeado para o Prêmio Nobel de Literatura, e recebeu muitos prêmios literários e honrarias na antiga Iugoslávia e no exterior. Em sua obra literária, apresentou temas sobre a continuidade entre os antigos povos dos Balcãs e seus descendentes modernos. No trabalho de Pávlovitch há referências frequentes ao passado antigo e medieval, aproximando à atualidade. Faleceu no dia 17 de agosto de 2014, em Tuttingen, na Alemanha.
Bosque da maldição
Bosque da maldição
estandarte do crepúsculo
destino chegam
para repousar
Coleções de cadáveres
bóiam sob a terra
nomes esquecidos
brotam com as pedras
Dias perdidos
sóis esparramados
feito nuvens mortas
afogam-se no rio
Os séculos conversam por telefone
apenas a mentira
imagina ter direito ao regresso
Círculo
Seres de olhos verdes
contemplam as águas
que não escorrem
O olhar
flutua sobre as águas
encontram nuvens
onipresente
Há muito
os peixes enverdeceram
morreram
Eram nenúfares
que alçaram vôo
para as alturas
Hoje seus olhares
retornam às águas
Pacificação
Nas trevas
uma abelha
perfura os olhos
do moribundo
O cego
ergue as mãos
o punho recende
a flor
Um sol miúdo
ingressa pela porta
Sangue escorre pelo vidro
Aviso
aos que enxergam longe
O princípio do poema
Uma mulher atravessou o rio comigo
na névoa e sob o luar,
atravessou o rio ao meu lado
e nem sei mesmo de quem se trata.
Subimos para a as montanhas.
Seus cabelos longos e dourados,
coxas próximas ao caminhar.
Abandonamos leis e parentes,
olvidamos o aroma da mesa paterna,
abraçamo-nos de repente
e nem sei mesmo de quem se trata.
Não retornaremos aos telhados da cidade,
vivemos entre estrelas na planície,
exércitos não nos encontrarão,
águias tampouco,
um gigante descerá entre nós
e deverá possui-la
enquanto eu estiver caçando javalis.
E nossos filhos entoarão o princípio
desta tribo em longas canções
festejando fugitivos e deuses
que cruzaram o rio.
*Poemas do livro “Boque da maldição”, Editora UnB, 2003.
Tradução de Aleksandar Jovanovic