Pedro Lucas Bezerra nasceu em Natal, Rio Grande do Norte, em 1993. É mestre e doutor em Literatura Comparada pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte. É músico e escreve sobre música na revista O Inimigo (oinimigo.org). Publicou Trem Fantasma (Quelônio, 2021), além de colaborações em jornais e revistas.

Poema reticente, iniciado com vírgula

,

no meu jardim eu via faíscas

,

grave ar, grave nuvem
grafando com as garras
mais espúrias
a marca da doença

outra chuva vem de lá
mil maneirices teremos
que atravessar
pra que o trovador venha aqui
cante para nós
sua cantiga que traz a bonança

Almejei mira em árvore:
todos os desejos
me condenam

Deus não é o autor da morte

É impossível amar
sem se condenar completamente
até o final
diz o livro

Deus sequer me vê
com os pés descalços
as mãos sejas de farinha

Minha mulher com seus passos de
animal sadio
prepara o fogo, conversa com o cão
o animal a protege

Eu outra vez entrego-me ao vício
passo a mão para lá e para cá
peço meu café
digo a ela que nossos ritos
serão mais perigosos dia após dias

Os ventos são muito fortes
lá fora, no mundo soterrado
Ela me olha brevemente
breve notícia
do eclipse

Seus olhos trazem consigo
todas as figueiras
em que colho meu motivo
meu festim
meu jejum

Antissoneto de 1945

Em 1945 Natal era uma esfinge mais
eterna [mais que eterna enquanto pedra]
que a imobilidade

contra o fio de seda
da light
fluem naus na vila militar
o ofício de vozes rompe as janelas perscrutadas
abre feridas
compõe velas no rio impoluto
cria bocas no ventre das mulheres bêbadas
assume o cálice: quid est?

sumo sagrado
e flor-síntese:
abandonada noite no cais geral

Poema de afiar punhais

É preciso proteger
com muita alegria
os nossos dentes

penso quando afio facas
enquanto meus convivas dançam
na terra batida
aqui inicio cios e invento os zéfiros
que não vai passar pela enseada

meus dentes habitam as carnes
cortam os plátanos
anunciam a raiva
outra vez a raiva
meus dentes não me dão medo
e a eles me volto quando amo os cães

meus convidados dançando alongam seus passos
suam e se atam às marés
dosséis, engenhos, camuflagens de músculos
peles que habitam a terra
que dimensão terá o último sobrecéu

*Poemas do livro “Trem Fantasma”, Editora Quelônio, 2021.