Filipa de Mira Godinho Grego Leal nasceu no Porto, Portugal, em 1979. Poeta, escritora, crítica literária e jornalista, é uma das autoras portuguesas mais reconhecidas, tanto no em seu país, como internacionalmente, tendo a sua obra traduzida em diversos idiomas. Publicou o seu primeiro livro, “lua-polaroid’ (conto/ficção), em 2003, e estreou-se na poesia no ano seguinte com “Talvez os Lírios Compreendam” (Cadernos do Campo Alegre). Foi finalista do Prêmio Correntes d’Escritas, com “A Inexistência de Eva”, em 2012), e semifinalista, por duas vezes, do Prêmio Oceanos, com “Seguiram-se “Vem à Quinta-feira” (2016) e “Fósforos e Metal sobre Imitação de Ser Humano”, em 2019. Atualmente é responsável pela escrita e apresentação do programa de literatura “A Pequena Biblioteca”, no canal “RTP2”.
SOBRE AS PESSOAS QUE NÃO DÃO LARANJAS
Cheira bem junto à ria.
Não sei se é das laranjeiras.
Não sei estas árvores são laranjeiras.
Não se distinguir as laranjeiras
quando estão sem laranjas.
O mesmo me acontece com alguns livros
e com algumas pessoas.
OS NOSSOS HERÓIS DA ADOLESCÊNCIA MUDAM TANTO
Os nossos heróis da adolescência mudam tantos.
Enchem-se de caracóis e de suplícios. Morre-lhes o gato,
prostituem-se, não chegam a ser advogados (ainda bem).
O pior é que alguns deixam de ler e de beber.
Aumentam o ego e a barriga, não sabem estar sozinhos.
Já nem sequer tentam parecer interessantes.
Vão ao supermercado comprar ovos e massa
e se passam na praia ao fim da tarde, não se descalçam,
para não encherem os pés, e os carros, de areia.
A PRIMEIRA TINTA
Assim sai a primeira tinta:
o corpo cobre-se de cobre.
De negro insuspeito, inflamado.
Ninguém fala disto, do que diz na embalagem.
Diz: <<magic retouch>>. Diz: louro ou louro escuro
ou castanho acetinado ou preto.
É muito importante saber escolher
a primeira tinta. Depois não há retorno.
Depois não há forma de retocar o retoque.
Só lavando a magia até fazer mais ferida.
Só lavando até parecermos velhos outra vez,
enquanto a juventude espreita e goza.
Ninguém fala disto e realmente as palavras
são até impróprias quando o luto está por trás.
Eu digo que não há forma de o dizer com o corpo
assim todo negro da primeira tinta.
Uma pessoa promete calar e até cala
mas depois há a segunda tinta e a terceira tinta.
Somos cada vez mais grisalhos com o cabelo cada vez
mais escuro. Escuro como tudo.
MANUAL DE QUÊ
Eu já tinha escrito um manual de despedida para mulheres sensíveis.
Agora, só se escreve para mulheres insensíveis.
Rapidamente percebi: estava tramada.
Fui às Amoreiras comprar umas sapatilhas.
Eles garantiam-me que <<a placa de nylon com infusão de carbono
a todo o comprimento conferia uma sensação propulsora>>,
eles garantiam-me que a <<a sola intermédia em espuma leve
proporcionava amortecimento extremamente reativo>>,
eles garantiram-me que <<a parte superior reforçada com flywire
oferecia velocidade segura>>.
Não esperava tanto de umas sapatilhas azuis, feitas no Vietnã,
mas tinha aprendido a lição: a0s 38 anos, já não era com poemas
que resolveria a minha vida.
Querida mãe, numa sexta-feira, 13, comecei a correr.
SEPARAÇÃO TOTAL DE BENS
Devolveste-me:
as chaves de minha casa;
duas tragédias gregas
que eu tinha deixado na tua mesa de cabeceira.
Fique a pensar que nunca chegaste a usar a chave para entrar
na minha casa e que agora a casa já não era minha,
iria ser devolvida ao senhorio, trocada por uma casa
do tamanho abaixo, e que nesse dia eu teria de te devolver:
um anzol, uma flor seca, um chocolate russo, duas bolotas.
DON’T FUCK ME WHILE I’M CRYING
Toma, meu amor, esta escultura
que é a última que sei e posso.
Não desconfies da matéria dada
– também a escola foi de vidro
e te quebrou.
*Poemas do livro “Fósforos e Metal sobre Imitação de Ser Humano”, Assírio & Alvim, 2019.