William Edward Burghardt, mais conhecido como W. E. B. Du Bois, nasceu em Great Barrington, Estados Unidos, no dia 23 de fevereiro de 1868. Um dos mais importantes sociólogos e historiadores negros do século XX, foi considerado o “pai do pan-africanismo”. Também foi um prolífico escritor, tendo publicado diversos livros, inclusive de poemas em prosa, como no caso de “Água Escura: Vozes Dentro do Véu”, de 1920.  O racismo foi o principal alvo de suas posições, tendo protestado fortemente contra a prática de linchamentos, as leis e a discriminação. Foi fundador do “Movimento Niágara” e da “American Black Academy”, onde pode apoiar manifestações de arte e cultura. Sua principal obra, “As Almas da Gente Negra” (The Souls of Black Folk), de 1903, foi um trabalho seminal na literatura Africano-Americana. W.E.B. Du Bois faleceu em Acra, Gana, no dia 27 de agosto de 1963.


As orações de Deus

Nome do nome de Deus!
O assassínio rubro reina;
Todo o inferno está à solta;
Em d’ouro ar outonal
Caminham satanases sorridentes, farpeados e casqueados;
Enquanto no cume das colinas de cólera,
Negrume-brotando, carmesim o céu,
Falarás sentado, mudo.

Pai Todo-Poderoso!
Esta terra está louca!
Paralisadas, nossas mãos astutas;
Podre, nosso ouro;
Nossos galeões cambeteiam e cambaleiam
Sobre mares desaguados;
Todos os profusos passadiços
De Teus Grandes Templos, Deus,
Fedem com as entranhas
De nossas almas.
E Tu és mudo.

Acima do trovão dos Teus Trovões, Senhor,
Iluminando Teus Relâmpagos,
Toques e rugidos
A condenação tenebrosa
Deste inferno de guerra.
Pilhas rubras as polpas de corações, cabeças
E mãos de criancinhas.

Alá!
Elohim!
Verdadeiro Deus dos Deuses!
A morte está aqui!
Mortos são os vivos; encovados – mortos os mortos.
Morrendo estão os nascituros da terra –
Os olhos arregalados de ânimo e alegria dos bebês,
Poemas e orações, brilho-solar e cânticos-da-terra,
Grandes sonhos-retratados,
Fantasias fascinantes,
Cimeiros cânticos celestes – tudo
Nesta noite medonha
Contorce-se a grita e sufoca e morre
Nesta longa noite-quimérica –
Enquanto Tu és mudo.

Tende piedade!
Tende piedade de nós, miseráveis pecadores!
Aproxima-Te, desvenda Tua Face,
Derrama a luz
Que fervilha acima do Teu Trono,
E destina esta dança do diabo aos desastres-trevas!
Ouça!

Fale!
Em Nome do Grande Cristo –

Eu ouço!
Perdoe-me, Deus!
Acima do trovão escutei bem;
Sob o silêncio, agora, –
Eu ouço!

(Espere, Deus, um pouco de espaço.
É tão estranho falar Contigo –
A sós!)

Este ouro?
Eu peguei
É Teu?
Perdoai; Eu não sabia.

Sangue? Está molhado de sangue?
É das mãos do meu irmão.
(Eu sei; as mãos dele são as minhas.)
Fluiu para Ti, ó Senhor.

Guerra? Nem tanto; não é guerra –
Domínio, Senhor, e sobre negros, não os brancos;
Pretos, negros e amarelos,
E não a Tua Raça Escolhida, ó, Deus
Nós assassinamos.
Para construir o Teu Reino,
Para enfeitar nossas esposas e pequeninos,
E dispor suas almas a brilhar –
Por isso matamos essas raças menores
E civilizamos seus mortos,
Violamos borracha vermelha, diamantes, cacau, ouro!

Por isso, também, uma vez, e em Teu Nome,
Eu linchei um Crioulo –

.    (Ele delirava e contorcia-se
.     Eu o ouvi chorar,
.     Eu senti a luz-vital saltitar e resfolegar,
.     Eu o vi crepitar lá, no alto,
.     Eu o observei murchar!)

Tu?
A Ti?
Eu linchei a Ti?

Acorde-me, Deus! Eu durmo!
Qual foi aquela palavra horrível que disseste?
Aquela coisa negra e dilacerada – eras Tu?
Aquele engasgo – era Teu?
Esta dor – é Tua?
Estão, então, essas balas perfurando a Ti?
Todas as guerras de todo o mundo,
Por todos os tempos obscuros, derramaram Teu Sangue?
Sofrer todas as mentiras e roubos e ódios –
É esta a Tua Crucificação, Deus,
E não aquela esquisita cruzinha,
Com vinagre e espinhos?
Este aqui é o Teu Reino, não ali,
Esta pedra e estuque à deriva de sonhos?

Socorro!
Sinto aquele choro baixinho e terrível –
Quem clama?
Quem chora?
Com um soluço silencioso que rasga e lacrimeja –
Deus pode soluçar?

Quem ora?
Ouço fortes orações amontoando-se,
Como ventos poderosos em pântanos escuros –
Deus pode orar?

Rogo-te a Ti, Senhor, e a mim?
Tu precisas de mim?
Tu precisas de mim?
Tu precisas de mim?
Pobre alma ferida!
Com isso nunca sonhei. Eu pensei –

Coragem, Deus,
Eu vim!

Toda-Poderosa Morte

Suavemente, muito suavemente –
Pois ouço, acima do murmúrio do mar,
Passos pávidos e pasmados-perdidos, como de Alguém
Que vem de além dos infinitos fins do Tempo,
Com voz que paira através de estrelas cantantes;
Seu som sutil eu sinto através desses olhos-escuríssimos,
Escuto a Luz que Ela aduz em Suas mãos –
Toda-Poderosa Morte!
Suavemente, ah, suavemente, para que Ela não passe por mim,
E aquela Luz implacável onde minh’alma anelante
E meu corpo quebrantado retorceram-se durante esses anos,
Desvaneça no breu brumado de meus dias.

Suavemente, total e suavemente, deixe-me levantar e saudar
O forte e baixo toque desse chamado há tanto-esperado;
Velozmente seja todo meu bem e marcha ao além,
E que este vasto vigor velado e vencido de minh’alma
Busque seja como for noutro lugar seu descanso e fim,
Onde espaços infinitos se estendem,
Onde o tempo infinito geme,
Onde a luz infinita derrama
Através dos reinos negros da morte eterna.

Então porventura poderei ver o que não vi,
Então poderei saber o que não sei;
Então poderei realizar meus sonhos.
Adeus! Que não haja som de luto ocioso
Para estremecer este silêncio completo – salvo a voz
De crianças – criancinhas, brancas e negras,
Sussurrando as façanhas que tentei fazer por elas;
Enquanto eu finalmente sem-guia e só,
Passo suavemente, total e suavemente.

Crianças da Lua

Estou morta;
Entretanto, d’algum modo, d’algum lugar,
Na estranha contradição do Tempo,
Posso contar daquele ato atroz, com que
Ofertei às Crianças da Lua
Liberdade e vasta salvação.

Eu nasci e era uma mulher
E percorria pela rua que corria,
Que flui e reflui das colinas do Harlem,
Por cavernas e cânions calcados em clarão,
Até o mar revolto.

Naquela noite das noites,
Fiquei só e no Fim,
Até que a súbita estrada para a Lua,
Dourada em esplendor,
Converteu-se concreta demais para descrer.

Vagamente pus os pés no ar,
Fugi, flutuei, através das vibrações da luz,
E tudo ia à volta, acima, abaixo, as zoadas
De asas todo-poderosas.

Encontrei uma terra crepuscular,
Lá, mal mascarado, o Sol
Lançava raios suavemente-soturnos
Vermelhos e marrons para queimar o solo férreo
E banhar os picos branquíssimos-nevados
Em poderoso esplendor.

Negros eram os homens,
Cheias-cabeleiras e silenciosos-remansosos,
Movendo-se como sombras,
Curvando-se com a cara de terror para a terra;
E mulheres não havia nenhuma.

“Mulher, mulher, mulher!”
Gritei em pavor crescente.
“Mulher e Criança!”
E o grito cantou revoando voltando
Através do céu, com as
Zoadas de asas todo-poderosas.

Asas, asas, infinitas asas, –
Céu e terra são asas;
Asas que drapejam, desfraldam e dobram
Sempre dobrando-se e desdobrando-se,
Nunca dobrando-se uma vez mais;
Asas, velando alguma vasta
E velada face,
Na escuridão esbraseante,
Atrás do dobrar-se e desdobrar-se,
O rolar-se e desenrolar-se de
Asas todo-poderosas!

Vi os homens negros amontoados,
Esbaforindo de terror, esborrachando na terra a cara;
Em vão os agarrei e apertei,
Emudecidos assombraram-se e acanharam-se,
Murmurando numa monótona melúria:

.   Ó, Liberdade, ó, Liberdade,
.   Ó, Liberdade, vem a mim;
.   Antes de ser escravizado,
.   Serei soterrado em meu túmulo,
.   E irei para casa para o meu Deus,
.      E serei livre.

Era o cântico-angelical
Dos mortos,
E a cada instante, enquanto cantavam,
Alguma coisa alada de asas irradiava todo o céu,
Dobrando-se e desdobrando-se e dobrando-se uma vez mais,
Desraizando seu sangue e entranhas,
Até que estrilei em terror total;
E veio um silêncio, –
Um silêncio e o pranto de um bebê.

Foi aí que finalmente vi e me envergonhei;
Sabia como essas coisas emudecidas, escuras e ermas
Deram sangue e vida,
Para defender as cavernas subterrâneas,
As grandes cavernas negras da noite absoluta,
Onde a terra jazia cheia de mães
E seus bebês.

Criancinhas soluçando na escuridão,
Criancinhas chorando numa dor silenciosa,
Mãezinhas balançando, tateando e lutando,
Cavando, cavoucando e rastejando
Em meio aos moribundos-mortos e mortos-vivos
E pingando e respingando sangue quente e corrente,
Muito, muito abaixo de asas, –
O dobrar-se e desdobrar-se de asas todo-poderosas.

Curvei-me com lágrimas e mãos piedosas,
Acima dessas crianças de estrelados-olhos, –
Encrespadas-cabeleiras, vozes meigo-melancólicas de bebê,
Suplicando baixinho por esplendor, estima e existência –
E sussurrei:

“Criancinhas chorando aí dentro,
Deus descobrirá suas formosas faces;
Recompensará por seu demasiado desespero,
Ele enviará Sua ternura;
Para o percurso de seus pés
Fará uma mística melodia delicada
Na escuridão de sua cabeleira;
Resplendor e risos no ar –
Criancinhas chorando aí dentro,
Deus descobrirá suas formosas faces!”

Avancei acima dos alanceados e sangrentos homens,
A amurada amarinhou-se contra os céus,
E o grito:

“Ergam-se, eu proclamo, construam e destruam;
Combatam com coragem, conquistem um caminho,
Destravar, desalgemar e desamarrar;
Sejam homens e livres!”

Emudecidos encolheram-se,
Murmurando apontaram para aquele pico,
Que uma vastidão mais vasta,
Onde uma escuridão pairava,
“Quem deve olhar e viver”, suspiraram;
E senti
O dobrar-se e desdobrar-se de asas todo-poderosas.

Nada obstante, construímos a ferro, tijolos e sangue;
Construímos um dia, um ano, mil anos,
Sangue foi a argamassa, –
sangue e lágrimas,
E, ah, a Coisa, a Coisa das asas,
A alada, dobrável Asa das Coisas
Abasteceu bastante brava argamassa
Para tal torre.

Lenta e mais lentamente engue-se a imponente incumbência,
E com ela ergue-se o sol,
Até que finalmente em um dia selvagem,
Volteada-ventania, varridas-nuvens e terrível
Fiquei sob a sombra em chamas
Do pico,
Sob as zoadas de asas todo-poderosas,
Enquanto lá embaixo de meus pés,
Fluía a farta fila de faces sombrias
E o pranto das criancinhas soluçando debaixo da terra.

Só, nos cimos,
Vi através os firmamentos nas alturas
O drama de Deus Todo-Poderoso,
Com todos seus sóis e estrelas flamejantes.
“Liberdade!”, gritei.
“Liberdade!”, gritaram céu, Terra e estrelas;
E uma Voz aqui-tão-longe,
Dentre o dobrar-se e desdobrar-se de asas todo-poderosas,
Respondeu: “Eu sou a Liberdade –
Quem vê minha face é livre –
Tu e os teus”.

Não ousei olhar;
Abaixo mirei as cabeças acabrunhadas e os olhos fechados,
Afora, contemplei o salpicado e incendido azul –
Mas sempre avante, voava acima
O soluçar de pequeninas vozes, –
Para baixo, para baixo, para a noite adentro.

Lentamente, levantei-me lívida alcantilada;
Acima esforcei-me: a face! a face!
Avante cambaleei: a face! a face!
À beleza maravilhosa como morte súbita,
Ou horror horrível como vida indissolúvel –
Alto! Alto! a senda edificada a sangue;
(A sombra tornando-se mais vasta!
O terror vindo mais rápido!)
Alto! Alto! à escuridão esbraseante
De uma face velada.

E dobrando-se e desdobrand0-se sem fim,
O rolar-se e desenrolar-se de asas todo-poderosas.
O último degrau ergueu-se!
O último grito fraco de dor
Estremeceu através as estrelas,
E então –
Asas, asas, triunfantes asas,
Ascendendo e descendo, crescendo e decrescendo,
Balançando e bamboleando,  rodeando e rodopiando,
Sussurrando e urrando, brotando e brilhando,
Espalhando e arrebatando e sombreando e chamejando –
Asas, asas, eternas asas,
Até o quente e vermelho sangue,
Dilúvio fugindo do dilúvio,
Trovejou através de todo o céu e meus ouvidos,
Enquanto tudo através de um céu púrpura,
O fasto vasto pinhão.
Tremeu ao desdobrar-se.

Ergui-me à Montanha da Lua, –
Senti a glória esbraseante do Sol;
Ouvi a Canção das Crianças gritando: “Liberdade!”
Eu vi a face da Liberdade –
E morri.

*Poemas do livro “Água Escura – Vozes de Dentro do Véu”, Editora Fósforo, 2025.
Tradução de Nina Rizzi.