Alexandre Guarnieri nasceu no Rio de Janeiro, a 10 de maio de 1974. Poeta e historiador de arte, é Mestre em Comunicação e Cultura/Tecnologia da Imagem pela Escola de Comunicação da UFRJ. Como poeta tem 10 livros publicados até o momento, além de participações em antologias e obras de referência. Ao lado de Nuno Rau, Jorge Elias Neto e Alberto Bresciani, organizou “Escriptonita: pop/poesia, mitologia-remix & super-heróis de gibi”, em 2016. Venceu o Prêmio Jabuti de Poesia, em 2015, com o livro “Corpo de Festim” (Confraria do Vento, 2014) e foi semifinalista do Prêmio Oceanos, em 2019, com o livro “O sal do leviatã” (Penalux, 2018).

Participou de diversos movimentos de poesia falada nos anos 90, como “Cambralha” na PUC-RJ, o “Zn/Zs – Salada de Futuro” na UERJ, o “CEP 20000” no Centro Cultural Sérgio Porto, o “Interface”, no Teatro da Reitoria da UFF, e o “Segundas Urbanas”, no Centro Cultural Oduvaldo Vianna Filho. Fez parte da primeira formação do grupo performático “V de Verso”, coordenado pelo poeta Ricardo Chacal, e coordenou junto com o poeta Flávio Corrêa de Mello, o NCP (Núcleo de Criação Poética) do Sobrado Cultural, onde mantinham o recital mensal “Poesia no Sobrado”. Atualmente pertence ao corpo editorial da revista eletrônica Mallarmargens.

 

o templo da técnica

na glândula de eurekas
onde nervos se acercam

o miradouro do inédito/
halo por sobre a névoa

há alvéolos & células
nos favos do encéfalo

à revelia do secreto –
o alvo que elucubra;

pulsa descarga elétrica
no interior desta cela;

> ( * ) <

numa arca de faiança/
ou gaiola de estanho

onde encaixa o fórceps
ante a ameaça do dano

nesta caixa ou antro
que chamamos “crânio”

: voz atrás dos olhos
– cosmo neurológico –

a noz/ o cofre de inox
para o lógos de Nikola;

e veja aqui, sob a testa,
este mistério inconteste!

o castelo da estética

a massa cinzenta: sêmola
de toda sentença,

nódulo neuronal das lendas
que relembra

ao abrigar em cada uma
de suas células

da aspereza das pedras
à leveza da pétala;

primeiro e último sítio
de qualquer mito e espírito;

sede do novo e do velho,
do crente e do cético

cujo pejo é o desejo
pelo tal “juízo estético”;

eis o cérebro de Tesla
em seu par de hemisférios!

um abismo aberto
entre a euforia e o tédio,

ao aludir do lúdico
utilitarismo (no ministério)

ao surgimento súbito
dos surtos psicodélicos;

seu lar de cálcio e ferro
lacra a mandala

no cáucaso ático
dos cálculos matemáticos;

o miolo tônico
sob o osso poroso / o mar

do sonho sob o
solo do corpo; no crânio

está assentado
o seu castelo hermético,

da larga borda de Abraxas
a ágora da Via Láctea!

traduzir-se
.                               apud Ferreira Gullar

acaso vença, por mera conve/
niência, da teoria oposta ao mi/
to, este conflito – da sã ignorân/
cia das crianças sob o severo jugo
das réguas de estudo -, do utili/
tarismo sucessivo, puro e simples
sobre a cultura vista como circo
(supérflua/ nula), sem conciliar
à velha luta a mesma desavença,
desde sempre, entre a fantasia e
a crença na verdade da essência,

.                                            será ciência?

se uma parte de nós é retrô
e outra parte é avant-garde,
ao recapturar toda estranheza
na fronteira mesma em que
beira a familiaridade – como
um experimento de linguagem –
no exato ápice dessa passagem
para legá-la à posteridade

.                                                será arte?

ante a violência do combate
das Ciências sobre as Artes
e vice-versa, destarte, espe/
remos sem alarde (e antes que
seja tarde) pelo com/provável

.                                                EMPATE!

limiares

o alfa e o ômega de
meus extremos não se
anulam, apenas buscam
no problema, uma maneira,

siameses que, sem julgar,
se juntam, em suma: há
o jogo que perdura sem
perturbar o teorema;

sobre a disciplina daquele
que cria o dínamo (( 30 ))

[?] ainda que surja a dúvida,
superá-la sem descuido, sem
recusa, desvendar numa centrí/
fuga as linhas de fuga de um
dos anéis de saturno, a velo/
cidade da luz, a trajetória
de voo de uma coruja noturna
(qual verdade jaz oculta no
cálculo da hipotenusa?) para
realizar enfim, além da mera
figura, sua hélice dupla; e
i  n  i  n  t  e  r  r  u  p  t  a ((  ))

notar na palavra “MÁ  QUI  NA”

que o primeiro “A” – acentuado –
a LIGA, iniciando ali uma espécie
tríplice de intimismo maquínico
(ou mecanismo íntimo tripartite);

a sílaba “QUI” – mediatária
desse complexo silábico -,
é seu cerne impenetrável,
acelera prótons > elétrons por
intermédio do projeto técnico;

a última partícula “NA” orques/
tra com sucesso o fim de seu
funcionamento (e tudo parece
correto) quando algo (retroa/
tivo) a desliga pelo centro

mas entre a maquinação da má/
cula [resíduo & toxina | ele/
trólise em esclerose] e uma
máquina imaculada (tão alta e
clara), que ímã, que estigma,
que pilha, poderia alimentá-la?
.                                   [  a língua?  ]

notar que a palavra “c O rp O”

os “ÓS” são olhos
perscrutando
o lado de fora
equilibrados pelas consoantes
“RP”, enquanto a cauda do “P”,
ligeiramente escoliada,
é sua coluna vertebral,
espinha dorsal das sílabas
e limite entre as outras
.                                  [partículas

*Poemas do livro “NIKOLA TESLA [ENTRE O TEMPLO DA ESTÉTICA E CASTELO DA TÉCNICA]”, Editora Patuá, 2023.