Han Bo nasceu em Heilongjiang, na China. Poeta, dramaturgo e escritor de viagens, possui diversas coleções de poemas e livros de viagens, principalmente em suas passagens pela Europa e Ásia. Recebeu vários prêmios literários, entre eles o “Liu Li’an da China”, no gênero poético. Atualmente radicado em Xangai, fundou o Night Stage Drama Studio, que se concentra em dramas experimentais.
Moderna-genitalidade
Contemporaneidade: às vezes, ela
Habita o temporário. Modernidade
São os trilhos capturados
Pela linha de Greenwich, ansiosa,
A espuma do chá morde a taça. Às vezes,
Ela destrói a modernidade fabricada
Vive na contemporaneidade do
Pensamento de auto-imolação: fumaças pretas
Lançadas na direção da Rússia, não sabem como
Começar a destruição do moribundo progressista.
A rua do Exército Vermelho
Harbin: o clamor do vaivém fervilha, cozendo o dia.
A Rússia que chega de trem já foi devorada pelos
Estudantes russos, a Rússia da noite supérflua, eletrificada,
De mãos dadas com o néon e com os estudantes forjados por Stalin.
O poeta que não consegue comer o dia só tem a espera para comer de graça,
A espera é de tortilhas, finas mães camponesas,
Embrulhados os pais de origem incerta se irritam com a carne reclamam dos vegetais,
Uma espera cozida feita de néon e de forjados por Stalin
Consumida a meia vida do poeta, as tortilhas supérfluas
Embrulham a mediocridade: a mediocridade não interrompe o verso,
A mediocridade diurna engorda 30 horas, o tempo da punição
Espera que o tem descarrilado transporte outras esperas.
Patos selvagens e a máquina de fazer kowtow
À janela: reflito sobre a corredeira.
A corredeira da planície, a época em que os patos selvagens
Botam ovos, a máquina de fazer kowtow
E Wang Jinxi refletem sobre o tempo sem mim.
Parede asfixiada, quente, inusitada, à prova de terreno gelado
Corredeira: o trem agarra o trilho, o trem agarra o diabo.
À janela: o futuro-corrdeira.
O futuro: a era da escassez
À janela: um plano raivoso como solução.
Os patos selvagens amansados pela estação
Só botam ovos para acalmar a corredeira.
A serenidade do petróleo nunca descansa.
Os carros cruzam Daqing, os passageiros tocados pelo diabo
Se alegram com os patos selvagens: clandestinos acidentais
Se jogam uns contra os outros, o tempo segue sem mim.
Fumaça preta pendurada ao sol
Para o mundo estradas abrem fendas, fumaça preta
Pendurada ao sol: deitado sobre os trilhos acordo
Para a vastidão sonolenta e pouco credível.
A terra nunca dorme, caminha enquanto sonha
Fumaça preta feito enxame pendurada ao sol.
A piedade do motor a gasolina sonha
Com morros e planícies: o capim seco combina com
O gado, a lama de fezes e urina
Fria e oleosa, a terra
Com suas manchas saltitantes penduradas ao sol
Contaminam os atalhos.
Como os dentes podres de quem cavalga,
Como o céu noturno pendurado ao sol que não dorme.
A piedade pendurada ao sol, inspeciona a superfície do verão.
A vontade importada em vagões sonha
Que o dono do capim desce de cavalo, e se instala
No cimento úmido da língua chinesa; o verão do rebanho
Morde os magros ossos do desastre dos ratos.
Fumaça preta para o mundo abre fendas, sozinha
Açoita o cavalo: o enviado-dos-trilhos-açoitador-de-cavalo
Simula a alta velocidade e não se move.
Nova cidadezinha
A meteorologia persuade o tempo,
A realidade obedece à ideologia: os veados
Obedecem ao labirinto. Sacos plásticos
Da chuva tempestuosa caem na estação
De trem. A cidadezinha parece
Restos de comida num bentô, um silvo
De vinagre e óleo. A ideologia
Da velocidade incha: aliviando a Grande Unidade,
Leva embora a sociedade antiga e as diferenças.
No campo, o tempo sofre de insônia:
Os trilhos carregam fotocopiadoras
Sem espaço, às vezes
As pessoas de sono leve são empurradas e apertadas
Nos sacos plásticos pelos nadadores.
O eremita vem para a cidade e se compara a um cesto de lixo:
A caixa escura contém boa e má sorte, casa destino perigoso à sua maneira.
Resíduos de papel insone, a insônia copia a Grande Unidade
Mas não pode copiar a não ação ou Tongzhi.
O Buda chega à costa dentro de um saco plástico,
E tira a cueca como quem despe a sunga:
Afrouxando o cinto que penetra
E deixa marcas profundas na gorda barriga: o antigo vilarejo
É o único lugar onde se pode salvar o passado.
*Poemas do livro “as formas do mar”, Edições Jabuticaba, 2024.
Traduções de Inez Zhou e Dora Ribeiro