Júlia de Carvalho Hansen nasceu em São Paulo (SP), em 1984. Poeta, astróloga e editora, é formada em Letras pela Universidade de São Paulo (USP) e Mestre em Estudos Portugueses pela Universidade Nova de Lisboa. Publicou títulos no Brasil e em Portugal, entre eles Cantos de estima (2009 e 2015); O túnel e o acordeom (2013); Alforria blues ou poemas do destino do mar (2013) e Seiva veneno ou fruto (2016), pela Chão da Feira – iniciativa editorial que realiza com outras três editoras mulheres.
11 de julho
Eu antes de tudo isso não sabia
o amor se trata mais de uma estação do ano que passa
ou mesmo de uma armadilha que acabamos por entrar
conscientes de não existir um uniforme de proteção
e, mesmo assim, nos colocamos lá, a salvar as abelhas.
E quanto mais produzíamos o mel espesso
grudando nos pequenos favos do teu encanto
dobras dos muitos olhares das tuas muitas faces
sulcadas pela persistência dos teus antepassados
que pouco te ensinaram sobre os meandros do mel
mas conheciam a intensa estupidez do mar
e a ela souberam fazer frente mesmo que o sal
os tenha rasgado no corpo a quebra das ondas.
Juntos acreditamos: saberíamos fazer
o mel e enfrentar o mar. Nada, esta espuma.
O teu rosto cortado de vento
hoje Portugal
é só um retrato na ilha de Goa.
28 de junho
Sempre acreditei nos diários
como o melhor gênero dentro da ficção.
Porque quando eles tocam o tempo
o que permanece
são as lacunas
que o absurdo repete.
7 de maio
Mesmo desfocado
o começo não enxerga bem
os cílios te protegem do pó
que a manhã abriu na estrada
o sol do outono vai secar todo o verde
o barro do pasto queimando num brilho ocre.
Antes que a secura corra para os teus olhos
tudo bem, você chora – é inevitável
também o verão acabou
com todas as promessas de fertilidade
mas a terra da estrada ficou dourada.
31 de março
Uma mistura de cupins e erros
foi o que me trouxe até aqui.
Metade desta constatação é cansaço
a outra metade é a força da realidade.
Os labirintos forçam a amizade comigo
é assim com quem gosta da lábia
da vida que traga e assopra
com a força do furacão pra fora e pra dentro
como que pra me alongar ou entristecer
eu enrolo o queixo no peito
o que me faz sorrir embora desgastada
faço a minha respiração mais profunda
no centro de mim
sinto o cheiro do colo
da minha mãe
da minha avó também
da tataravó que eu não conheci
e de quem herdei a cabeça
se estão em mim
se estão comigo
eu sou como os cupins
eu não estou sozinha.
*Poemas do livro “Ano passado”, Editora Nós, 2025.