João Luís Barreto Guimarães nasceu na cidade do Porto, Portugal, a 3 de Junho de 1967. Médico, Poeta e tradutor, as suas obras foram publicadas em várias antologias e revistas internacionais sobre literatura. Em 1992 foi condecorado com o prêmio Criatividade das Nações Unidas. Em 2017 recebeu o Prêmio Nacional de Poesia António Ramos Rosa, organizado pela Câmara Municipal de Faro. Em 2019 ganhou o Prêmio Livro de Poesia do Ano da Bertrand, pela sua obra Nómada. Em 2020, a versão inglesa do seu livro de poemas Mediterrâneo foi premiada com o Willow Run Poetry Book Award, da editora Hidden River Press, que iria ser responsável pela publicação do livro nos Estados Unidos. João Luís foi o primeiro autor de origem não americana a receber este prêmio.
<<Ainda não cresceu nada>>
Um dia
depois de tombar plantámo-lo
num metro de terra talhado à terra dura
da terra onde nasceu. Ainda não cresceu nada.
Entre mim e
a minha sorte
já não falta a de meu Pai
quase posso pressenti-la nesta sardanisca ferida:
a cauda insistente
mente.
Venho hoje conversar sobre as falhas
do granito
(deixar avultar por dentro a
possibilidade de Deus:)
Ato de contrição
Pela luz rara da garagem dois vultos
vão pôr o lixo. São velhos desconhecidos. Um
ao outro dão passagem (a
máscara de um cumprimento) esquivo na
escatológica arqueologia das misérias.
Homens de lixo na mão: exímios
a ocultar
versos da vida doméstica (quando
o gesto liso cabe ao avental abundante que
os devolve a casa). Há
em todo esse agravo uma redenção ferida
(um juízo resolvido) como
que
um indulto lento.
À distância de metros
Deixaste ficar um poema quando
levada de mim trocando meus cinco dedos por
outros
dois de conversa. Do outro lado da sala
(à distância de metros)
cruzamos um olhar vadio quanto dois desconhecidos
que se ferem de raspão
num corredor de autocarro. Desse
teu vestido injusto
(à distância de metros) o
teu olhar sobre o meu soltou qualquer coisa aguda
(qualquer
coisa em carne viva) qualquer
coisa de adultério.
Esposo serve vinho à mulher para almejar seus favores
Toma. Isso. Bebe tudo. É
um Porto de 85. Delidos pelo sofá deixemos
que deste vinho nos dê de beber
Dionisio. Escolher um sofá de sala
já devia precaver duas ou três características:
ser largo como o fastio
(profundo
como o quebranto) tão
longo como a preguiça.
Bebe tudo. Há
depois esses que adestram
(ébrios de vinho e poesia) o
tédio da burguesia.
Pão quente
Escravo do que aparece escrevo
porque acontece (a doença da poesia:
não desejo poesia a ninguém). O que
revela à folha ao comprar uma caneta?
Algo assim como <<metáfora
resiste à metonímia>> ou
<<virá o dia em que o simples falar
será poesia>>? Este
(com licença)
poema é uma das possibilidades:
a poesia está nas coisas
(pão quente)
destapa-a.
*Poemas do livro “Poesia Reunida”, Quetzal Editores, 2011.