Paloma Vidal nasceu em Buenos Aires, Argentina, a 4 de março de 1975. Poeta, escritora e professora de Teoria Literária na Universidade Federal de São Paulo, ela vive no Brasil desde os dois anos de idade. Além de poemas, já publicou livros de contos, romance e teatro. Dirige, desde 2015, o ciclo de palestras performáticas “Em obras”, já realizado em São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre e Paris, com a participação de escritoras e artistas brasileiras e estrangeiras. Fez trabalhos de tradução e edição. Traduziu, entre outros autores, Clarice Lispector, Adolfo Bioy Casares, Margo Glantz, Tamara Kamenszain, Sylvia Molloy, Lina Meruane, Silviano Santiago e César Aira. Em 2003, começou a editar com Mario Cámara e Paula Siganevich a revista Grumo. Mais recentemente coordenou a coleção “Entrecríticas”, de ensaios de crítica contemporânea.

24.6.11
na piscina

tudo muito simples.
trocamos uma correspondência breve
que eu guardo
numa caixa virtual.
ele escreve:
“hoje fui à piscina”.
e com isso me resgata
como um protetor de ouvidos transparente
perdido entre fios de cabelo
e outros restos.
continuo lendo.
sei que alguma hora o relato me encontrará.
ele escreve:
“nadando me lembrei de você”.
a simplicidade salva o meu dia.

18:18

11.3.14

fiz 39 anos.
acordei de ressaca
com os berros de herói
preso na torre encantada.
ajudei-o a descer
e depois do nescau
me joguei no sofá da sala
como uma fera derrotada.
o herói deu seu grito de guerra
e aferrado ao guarda-chuva
travou batalhas com seres terríveis.
em algum momento pensei
que tudo aquilo era meio perigoso.
mas ele é um bravo guerreiro
destemido e valente
e se precisar de mim
vai me chamar.
foi um sono entrecortado e manso.
acordei depois do meio-dia
coberta pelo casaquinho
do herói da bota vermelha
e com um balão da locadora
enfeitando meu leito
de mãe adormecida.

02:42

15.2.14

antes de sumir
ela me ensinou:
que a gente aprendeu uma língua
quando fala sem pensar
que as formigas gostam de filas
que a roupa se tira de pé
que quando se está entediado
dá para comprar uma máquina
de fazer pão
na internet.

10:21

12.7.15
devir

f. pergunta se
pode ser
o que quiser
quando crescer
digo que sim
meio distraída
então eu quero
ser um pinguim
como aqueles lá
de ushuaia
agora estou
prestando
muita atenção
mas não digo nada
difícil vai ser
deixar crescer
aqueles pelos

00:27

23.3.13
a posteriori

acabei de ter um sonho:
segurava com a mão direita
meu seio esquerdo
(muito pequeno
desde que tenho os meninos)
sentia um caroço
e pensava que
então é por isso que
estou assim

19:31

*Poemas do livro “lugares onde não estou”, Editora Sete Letras, 2017.