Ricardo Corona nasceu em Pato Branco, Paraná, no ano de 1962. Poeta, editor e tradutor, iniciou atividade poética no início dos anos 1980, publicando seus poemas em revistas e jornais literários. É vencedor dos prêmios Reconhecimento de Trajetória (2020), Outras Palavras (2020) e finalista do Prêmio Jabuti (2012). É autor dos livros Cinemaginário (1999), Tortografia, com Eliana Borges (2003), Corpo sutil (2005) Curare (2011), Ahn? [Abominável homem das neves] (2012), Mandrágora (2016), Morada do vazio (2023) e Nuvens de bolso (2023).
ASAS DERAM IMPULSO À CRIANÇA
o bugrinho entrou num ritornelo Schumann
. asas deram impulso à criança
Com flores em mãos o bugrinho desata núcleos
. asas deram impulso à criança
faz cócegas no jesuíta
. asas deram impulso à criança
SOLIDÃO
Letrinhas garranchosas, miúdas
à margem do espaço da página
no caderno de ciências:
Gaia rara –
No limítrofe dos confins
ex-estrela briluz
49.
degole a cabeça
ela pensa com os joelhos
tome hematoma, homem!
um CLOCKWORK nunca está à toa
comam tudo: comam tudo
deixem os ossos empilhados
42.
Bugrinho nasceu fora da aldeia
nem acaso nem passagem
e assim nasce
decalcado da paisagem
NOME SEM SOM
bicho algum o viu nascer
22.
– Almas levedadas livram-se do sono que as velava
entram no fluxo da menina curandeira.
Nem mais nem museu das águas:
a l m a s u r i n a m n o s o n o v e l u d a d o s o n h o.
Almas escorrem da fonte de visões. Vozes insones
murmuram o sonho-insônia. Setá.
Vêm todos los antíguos dueños de flechas.
Tobas, Wichí e Mocoví.
Vêm os Charrúas.
Todos, vêm todos
S E R E S – I N S Ô N I A
deslizantes com barro poroso na pegada aquífera
*Poemas do livro “curare”, Editora Iluminuras, 2011.