Luís Filipe Carrilho de Castro Mendes nasceu em Idanha a Nova, Distrito de Castelo Branco, Portugal, a 21 de novembro de 1950. Poeta, escritor, diplomata e político, foi ministro da Cultura do XXI Governo Constitucional de Portugal de abril de 2016 a outubro de 2018. Estreou na poesia em 1965 ao publicar poemas no suplemento juvenil do Diário de Lisboa e no suplemento literário do diário República. Começou a publicar  livros na década de 80. Sua obra é caracterizada pelo  virtuosismo no tratamento de formas poéticas tradicionais e a intertextualidade. Desde 2022, é sócio correspondente da Classe de Letras da Academia das Ciências de Lisboa (1.ª Secção – Literatura e Estudos Literários).


Finisterra

Como vultos se afastam numa praia
e sombras se desfazem frente ao mar,
vivemos e passamos sem notar,
na orla de um país, que em sua raia

de espuma se desfazem as quimeras
na falésias desertas do real.
E já inverno fecha em ouro e sal
um tempo que foi lume das esferas.

Deixemos que a palavra adormecida
ganhe a crua distância da razão
e o coração nos leve de vencida,

que já o frio começa e a ilusão
inundará de neve a nossa vida
e negará de novo a solidão.


Epígrafe com um verso de Jorge Luís Borges

Há algo de imoral numa promessa,
dizia Borges num poema seu.
Lembra-me só, sem que eu sequer te peça,
esse esquecido verso quem mo deu.

Podia ser quem mais desconhecesse
um jogo que entre versos e temores
da nossa própria vida se tecesse
em doída suspeita de fulgores.

Perfeitos os amores sem piedade;
abolidas certezas; e a paixão
podia ser tão só a claridade
da noite a agonizar à nossa mão.

Ninguém estende a mão a um poema
que a memória não saiba transformar:
neste, corpos e versos são o tema
dos jogos que aprendemos a jogar.

Como um amor que dói sem ter nascido,
num verso cabe a vida e o seu olvido.


Crítica da Poesia

Que a frenética poesia me perdoe
se a um baço rumor levanto o laço,
pois que verso não há onde não soe
a música discreta doutro espaço.

Horizonte do verso é a dureza:
já mansidão não cabe neste olhar
que se pousa na faca sobre a mesa
e aprende nela o fio do seu cantar.

Mas se olhar nela pousa, como corta?
E se as palavras sabemos retomar,
quem nos devolve a chave dessa porta
onde a herança está por encerrar?

Tão longe está de nós a poesia
como nuvem nos rouba a luz do dia.


INCIPIT

.              (à memória de David Mourão-Ferreira)

E se em vez das palavras fosse um eco
de pura solidão que te chamava?
E se em vez doutro nada fosse um erro
e se em vez do presente fosse nada?

E se em vez da memória fosse o sopro
da pura solidão adormecida?
E se em vez da ausência fosse o corpo
e sem em vez de um só verso fosse a vida?

É só jogo de ausências este verso
ou espelho numa leve madrugada,
feito engano de luzes e disperso
batimento de remos na jangada?

(Náufragos de nós mesmos sem saber
as imagens que o verso quis perder).


POÉTICA MÍNIMA

Considera o peso de uma alma,
o cheiro a pó-de-arroz
atrás de tanta chama,

a sede amarrotada,
o cetim que não brilha,
a boneca no fundo
da quinquilharia.

Nada pesa no limbo
que há dentro da memória:
considera na alma
o avesso da História.

*Poemas do livro “Poesia Reunida  1985 – 1999”, Topbooks, 2001.