Rollo de Resende nasceu em Cambará, Paraná, no dia 15 de agosto de 1965. Poeta, artista e panificador, morou em Foz do Iguaçu e mudou-se para Curitiba em meados dos anos 1980. Publicou Bem que Se Aviste Racho de Romã (1988), pela Feira do Poeta, os poemas em cápsula de Homeopoética (1991, com Jane Sprenger Bodnar e Fernando Zanella), Água Mineral (1995) e Uma Flor de Lótus (1998, edição póstuma). Integrou o grupo Baú de Signos, além participar de diversas antologias e do projeto Disque-Poesia. Morreu em 23 de agosto de 1995, em Curitiba.

crônica

os frutos da paineira pesam como bagos.
pesados, pesados, apontam para baixo.
dali, quando maduros, nascerão nuvens.

a arca

estou lendo um livro mas não me estou me livrando
dele. cada página virada cobre-me uma camada
leve e resistente de papier-maché.
uma vontade maior me fala.
eu fico quieto ouvindo as coisas que devo
escrever, eu ouço com a ponta dos dedos.
eu também vou escrever porque preciso conhecer
o mistério que sou, o mistério que é toda coisa
viva, toda coisa que se move.
eu estou transferindo a biblioteca do meu quarto
para dentro de mim, eu estou mudando o mundo
para dentro de mim.
eu viajo, saio do meu país, para encontrar
as melhores coisas para levar a dentro de mim.

nunca irei escrever alguns poemas

entrava luz sinistra fim de tarde
pela janela branca.
aquele ali deitado achou ser
artificial essa luz
amarrados seus pulsos no estrado
de metal.
o caninho conduzindo gotas de alimento
líquido “ele já não comportava
o sólido”
os olhos mortiços os olhos foram
os primeiros a começar morrer
e os intestinos
intempestivos intestinos

tudo isto viu este que entrou
no quarto branco para dois
tocou a mão amarrada
e a mão se amarrou
ficamos os dois de mãos dadas
enquanto via os olhos perderem a órbita
enquanto insistia na pergunta
e a resposta um
doce rosnar
– blasi, lembra de mim?

coberto com lençol pastel.
o doce relevo de seu sexo
eu não pude deixar de desejá-lo
mesmo as amarras o caninho
os olhos indo e vindo
a luz sinistra
você estava desejável:
eu quis que você viesse,
esta era a promessa de nossa amizade:
um dia eu iria tocá-lo.

amor dos homens.

papoulas

a noite dentro de mim
a noite quando fecho
.                          os olhos

esta noite
mesmo se é meio-dia

as pálpebras cerradas
seus cílios crescidos

o buraco causado
por esta noite adentro

o buraco para que ali
enfie Deus as raízes
.                   de seu bulbo

fraternidade das espadas

dois adolescentes urinando
ao redor do mesmo vaso.
serão flores másculas
ou pequenos machos florescendo?

*Poemas do livro “espáduas”, Telaranha, 2023.