Adailton Medeiros nasceu em 16 de julho de 1938, no povoado Angical, em Caxias, Maranhão. Viveu por mais de 70 anos no Rio de Janeiro, onde ficou conhecido pelo ativismo cultural . Poeta, escritor e jornalista, faleceu no dia 9 de fevereiro de 2010, no Rio de Janeiro.

O VAZIO DOS HOMENS

No vazio dos homens
mora talvez o melhor do Homem:
– o Nada
Aí – como no vazio da casa – está azulzênite
o espaço vazio pro vôo do urubu-rei
do meu canário amarelo cantador
e do beija-flor – livre livre livre

No vazio dos homens
mora talvez o melhor do Ser:
– o Silêncio
Na casa (que me abriga do exterior)
– no interior do seu vazio uterino
entre paredes – o silêncio marinho
oxida meus ossos dentes e as pérolas dos olhos

No vazio dos homens
mora talvez o melhor do Tempo:
– a Unidade
Porque a construção do povo é um mais um mais um
mais um mais um mais um mais um até as multidões
Eu – no tempo unitário – e nós (homens
vazios) pescamos nossos signos (câncer: o meu)

SINAL

Sai de dentro do azul
uma borboleta com as vestes do arco-íris
e pousa numa flor amarela

Agorinha as vejo – desta janela
da Casa de Emaús – nos jardins de São Bento

Essa flor amarela me faz
lembrar o poeta Ivan Junqueira
com o seu belíssimo “Flor Amarela”
bem como o menino que eu era dentro dela

Eis aqui a Verdade e o Mistério criados por Deus

ANÁLISE

Desejo
(ultrapassando os guetos
do consciente e do inconsciente)
esgotar os limites do possível
do meu possível
do meu conviver
do meu estar no mundo
do meu possível estar no mundo
do meu ser via-viagem
do meu viver dentro de mim – só
Cinzas

METAFÍSICA

Procurando o vislumbre do Ente e Ser
por entre ramagens da Floresta Negra
ia Ele – fauno bode corvo – na boca
o gosto da relva e das papoulas

– Papoulas? – Eram exatamente papoulas?
– Não sei nem isso me induz à Regra
do fazer nos ramos o som que me toca
na brancura do Linho antes de ser tecer

Pequenino homem ou cão vadio ou rolas
sangue-de-boi noutra floresta negra
como fruta verde nalguma mesa posta

Pequenino homem só rumo do anoitecer
entre ramagens o corpo rubro coloca
nu no poema como no Livro que se gosta

LIÇÃO DO MUNDO

Adolescente – sonhei tudo o que tive direito
contudo nada alcancei
nem os sonhos possíveis
(- E este cravo sempre murcho)

Batalhei – lutei até me danar

Aprendi de cor a lição do mundo
(isso – nem todo mundo sabe)
mas do meu coração – vaso pequenino e burro –
transbordam
.                             as dores
.                             de amores
.                             nunca realizados

MORTE SUSPEITA

Com Madame Safo: Imperador de Lesbos – riquíssima e
bela fantasia – ganhou no último Carnaval (no des-
file do Hotel Glória) o primeiro lugar em luxo mas-
culino
Fedeu no quarto até que o síndico comunicou à Polícia
Por trás da pesada cortina de veludo bordô – apodre-
ceu o cadáver de Marx Freud (Em tempos pretéritos foi
guru e mago de boa parte da massa)

*Poemas do livro “Lição do Mundo”, Edição 7, 1992.