Reinaldo Edgar de Azevedo e Silva Ferreira nasceu em Barcelona, Espanha, no dia 20 de março de 1922. Poeta e compositor radicado em Moçambique desde 1941, produziu toda a sua obra em português. Apesar de não ter publicado nenhum livro em vida, sua poesia repercutiu bastante, sendo muito elogiado pela crítica literária de Portugal. Chegou a ser comparado com Fernando Pessoa, por críticos como António José Saraiva e Óscar Lopez. O poeta José Régio também foi um grande entusiasta da sua poética. Reinaldo Ferreira faleceu em Lourenço Marques, Moçambique, no dia 30 de junho de 1959.

*
Já não me basta morrer;
Tanto me falta a certeza
Que paro todo de ser
Na Vida sem mim ilesa.

Morrer é pouco. Destrói
A ordem do que, disperso
Apenas, logo constrói.
– Constante do Universo… –

Mas o mais? Essa energia
Contínua, que permanece,
Elo de nós, dia a dia…
Não sei pensar que ela cesse.

Nem sei, de tanto que a sinto
– Alma não, que não a creio… -,
Se sou sincero ou se minto
Ébrio do próprio receio.

*
Deixai os doidos governar entre comparsas!
Deixai-os declamar dos seus balcões
Sobre as praças desertas!
Deixai as frases odiosas que eles disserem,
Como morcegos à luz do Sol,
Atônitas baterem de parede em parede,
Até morrerem no ar
Que as não ouviu
Nem percutiu
À distância da multidão que partiu!
Deixai-os gritar pelos salões vazios,
Eles, os portentosos mais que os mares,
Eles, os caudalosos mais que os rios,
O medo de estar sós
Entre os milhares
De esgares
Refletidos dos colossais
Cristais
Hilares
Que a sua grandeza lhes sonhou!

*
Nasci poeta abstruso.
Amo as palavras que estão
Entre o arcaico e o difuso
No cerne da indecisão.

Prefiro adrede e gomil.
Digo delíquio e fanal.
E só descrevo um funil
Em termos-vaso-de-graal.

Mas nesta minha importância,
Neste sol que me irradia,
Nem Deus preenche a distância
Que vai de mim à Poesia.

*
No amplo e ermo degredo
Da Noite enorme incriada,
Acesso ao átrio do medo,
Reverso a negro do Nada.

Erra uma asa, partida,
Dum qualquer pássaro morto,
Que só porque erra tem vida
No mar do nada sem porto.

É quando passa e projeta
Na Sombra sombra erradia
Que nasce a mãe dum poeta
E se concebe poesia.

*
Do campo dos mortos
Em terra estrangeira
Por onde passamos
Absortos os dois,
Saímos ilesos de melancolia,
Por irmos tão vivos, tão livres
E juntos os dois.
Em vão sobre as campas
Dos mortos estrangeiros
Visível olvido
Na terra sem rosas votivas
Chamava por nós.
Nós íamos indo,
Felizes, felizes,
E o ventre da terra
Sonhava raízes
À volta de nós.
Nós íamos indo
Na hora que, breve, passava,
Vivendo-a somente.
E a nossa presença encarnava
No campo dos mortos em terra estrangeira
– Passado, passado –
O presente.

*
Se eu nunca disse que os teu dentes
São pérolas,
É porque são dentes.
Se eu nunca disse que os teus lábios
São corais,
É porque são lábios.
Se eu nunca disse que os teus olhos
São d’ónix, ou esmeralda, ou safira,
É porque são olhos.
Pérolas e ónix e corais são coisas,
E coisas não sublimam coisas.
Eu, seu algum dia com lugares-comuns
Houvesse de louvar-te,
Decerto que buscava na poesia,
Na paisagem, na música,
Imagens transcendentes
Dos olhos e dos lábios e dos dentes,
Mas crê, sinceramente crê,
Que todas as metáforas são pouco
Para dizer o que eu vejo,
E vejo lábios, olhos, dentes.

O PONTO

Mínimo sou,
Mas quando ao Nada empresto
A minha elementar realidade,
O Nada é só o resto.

*Poemas do livro “Poemas”, Coleção: O chão da palavra/poesia,  1998.