Adriano Espínola nasceu em Fortaleza, Ceará, em 1º de março de 1952. Poeta, escritor, crítico literário e professor, é atualmente vice-presidente da Academia Carioca de Letras. Sua trajetória reúne uma expressiva produção poética e crítica, além da participação em importantes antologias da literatura brasileira, entre elas “Os Cem Melhores Poemas do Século”, organizada por Ítalo Moriconi e publicada em 2001.

Na poesia de Adriano Espínola, a linguagem ocupa um lugar central. Sua obra se caracteriza pela investigação das possibilidades da palavra e pela reflexão sobre a experiência humana, especialmente em suas relações com a cidade, a memória, a identidade e o tempo. O espaço urbano aparece frequentemente como território de encontros, conflitos, deslocamentos e descobertas, revelando as contradições da vida contemporânea.

Marcada por uma forte dimensão lírica, sua poética também incorpora elementos de crítica social e experimentação formal. Entre o rigor da construção e a expressão subjetiva, Espínola explora diferentes ritmos, vozes e perspectivas, fazendo da linguagem não apenas um meio de representação, mas também um espaço de investigação e criação.


Supermercado

Preso
ao meu salário
e às barras
do código
das mercadorias

vou
por entre marcas
gôndolas
& galerias
pagar
no final do fila

o preço amargo
do pão
e da passagem
dos dias.

A rosa

Ao vê-la
– entreaberta –
ao sol
da manhã

triste sim
de tão alegre

me ilumino
e calo.

A beleza que fica
é breve.

Projeto

Com estas pedras partidas.
Gesso e cimento fresco da madrugada.
Grãos da manhã para a fome dos galos.

Prumo exato do meio-dia.

Madeira e aço temperado da tarde.
Massa dosada de vida pelas ruas e casas.
Tijolos e palavras sobre o dorso suado das ideias.

Projeto e cálculo de sol, mestre de toda obra.

Irei – indefinidamente pedreiro e poeta
construir essa cidade.

Eternidade

A eternidade está na mesa,
boiando no prato de sopa.

Está no gesto de espantar
o voo súbito da mosca.

Caminha comigo na rua,
apalpo-a dentro do bolso.

Estabelece direções,
esquina, na fala do outro.

Já goteja nos gestos gastos
e no branco abismo da roupa.

A eternidade está na moda
que muda e mira teu corpo.

Escorre no muro e no medo,
nos olhos parados do morto.

(A eternidade vem no vento:
indaga, ruge e ri de novo.)

Se disfarça na sombra leve
e no tremor dentro do olho,

na calva parede do quarto,
na cama cruzando a noite.

Singra o silêncio dos espaços
e a memória do sonho louco.

Amanhece na tua janela
no espelh0-espanto do rosto.

Espreita num canto da mesa
o nada boiando no todo.

(A eternidade é o que se move
sem nunca sair do seu ponto;

são as coisas dentro do tempo,
o tempo nas bordas das coisas.)

A um passado

Teu rosto que passa
desbotado
na praça

eu flagro
no ato:
lembrança
que trago

– ó velha cidade –
no retrato
3×4

que não mais verei
mesmo
na eternidade.

Nas nuvens

No lixão
de uma rua
por onde passo
no subúrbio

um velho
par de sapatos
tamanho adulto
virados
para cima
com seu furo

no solado
de cada um

(sapatos que
juntos
bateram
muito chão)

agora
olham soltos
para o céu
e caminham
nas nuvens.

*Poemas do livro “Ave Nave do Dia”, Editora 7 Letras, 2026.