Bernardo Dias Ceccantini nasceu em Marília, São Paulo, em 1995. Poeta, formado em Letras pela Universidade de São Paulo – USP, é coordenador geral de comunicação da Biblioteca Mário de Andrade. Foi semifinalista do Prêmio Oceanos 2018, com o seu primeiro livro de poemas, intitulado “Na quina das paredes”. Também publicou poemas na Revista Pessoa e na Revista do Instituto de Estudos Avançados da USP, numa edição que destacou dez vozes da poesia brasileira contemporânea.
EFEMÉRIDE
O dia nacional da poesia não é
o dia pessoal da poesia
e a teimosa ainda não apareceu.
Me contento com um espeto de frango
na lanchonete giratória
depois de passar a tarde errando palavras
entre os latidos do trabalho.
Dois velhos atendentes
se provocam atrás do balcão,
ao meu lado um homem desabafa sozinho
sobre a viagem dessa noite pra Bahia.
– Ela virá, não virá?
Pergunto pra estufa dourada
com a minha língua sonolenta de Coca.
Mas novembro é quem responde, fedendo a suor,
com um esbarrão molhado de chuva.
ANTES DO PAPEL
Belos poemas na cabeça
sem jamais tirá-los de lá.
Que aqui fora eles oscilam,
enroscam na língua e vão entrando
onde não queriam.
Quando eram pura ternura,
ficam tensos, perturbados.
Se eram ódio puro,
amadurecem, ponderam.
Emocionam as amigas, a vizinha
convida pra um café com bolo.
Diz que também escreve versos.
O poeta quer morrer
quando os visita.
Percebe que não são bem aquilo.
Que não são nunca aquilo,
a excitação desta tarde,
alguns segundos antes
da caneta tocar o papel
e das palavras se olharem no espelho.
O QUE TINHA
Veio a laranja, o caderno, o fone –
a caneta você esqueceu
num canto sádico da mesa.
É possível bufar, voltar atrás
ou se render de novo
à cauda grave do anjo brega.
Mas também é possível relaxar nesse banco itálico
diante de uma clareira acidental,
chupar a laranja e memorizar cuidadosamente
o poema que não existe.
Sobre um dia latifoliado
com construções amarel0-barro,
pombos ingênuos
e velhos muitos vivos.
ZABRISKIE POINT
Da boca da década, do alto do céu,
eu vou voar bem baixo
quase arrancando sua cabeça
com minhas asas roubadas.
Eu quero brincar com seus olhos
que são oliveiras no deserto americano.
Te solto essa camiseta vermelha
planando como uma bomba
pra que você tenhas as coordenadas
e me encontre no último posto de gasolina.
Estou livre e triste,
mas te ofereço essas montanhas
onde vamos zanzar como um casal milanês.
Continuo acordado no cobre do seu rosto,
não acabei de descobrir o seu corpo de pó.
À guitarra do seu sorriso,
derrubo o revólver na areia
e aciono o avião rabiscado.
AO VIVO
Vermelho
é a cor da caneta que eu encontro
e da coberta que aquece meus joelhos
na varanda úmida dessa casa caipira.
O fim da chuva não era o fim,
mas já não me incomoda.
Se eu tivesse bebido menos café,
se um leitor me lesse fora do celular,
eu capricharia na descrição desses verdes hidratados
onde um adulto escuta de novo o chamado da fábula.
A mãe dela foi ousada em sair agora,
as pernas libertas depois da cirurgia de quadril.
Com fones de ouvido anacrônicos
o pai nem pisca na sala
acompanhando as curvas igualmente chuvosas do circuito.
Onde está ela senão a três passos de mim,
as roupas atléticas brilhantes e uma animação com remelas.
Não, eu não me incomodo com música alta de jeito nenhum.
E assim que passar esse cachorro perneta
eu também já acabei por aqui.
JANTAR NA FAZENDA
Um império disfarçado de senhor dá a largada.
A primogênita é escritora e acompanha tudo com carinho.
Eu nunca estive numa mesa assim comprida
e nem sabia que ficaria tão tenso perto de um mordomo.
Três asnos financeiros despem minha namorada,
eu sorrio como uma máscara japonesa
sofrendo pra decifrar a alcachofra.
Todos falam de ministros como se falassem de primos
e meu país diminui até virar um tabuleiro engordurado.
É pra isso então que me prepararam?
A frase retumba na minha cabeça
enquanto esmago poemas nos bolsos.
*Poemas do livro “Vida sortida”, Editora 34, 2026.