Priscila Branco nasceu no Rio de Janeiro, em 17 de outubro de 1991. É poeta, mestre e doutoranda em literatura brasileira, pesquisadora da poesia contemporânea escrita por mulheres brasileiras fora do cânone, editora da revista Toró e da Macabéa Edições, além de ser colunista da revista Cassandra. É analista de Literatura no SESC e também faz parte do Núcleo Interdisciplinar de Estudos da Mulher na Literatura (NIELM-UFRJ) e do grupo de pesquisa Mulheres na Edição (CEFET-MG). Além de “desenterrar os ossos”, publicou “Açúcar” (2021) e a plaquete “Pitada de prosa”.

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Cheia de moscas-varejeiras
e urubus bicando palavras
a escritura é uma fruta
apodrecida
inventando passados
com tinta fresca.

Lamparina mágica

Queria ser estrela de cinema,
best-seller,
pesquisadora renomada.

Tinha planos de fuga,
jogava na loteria,
olhava todos os dias pro céu,

Até que vi na TV uma notícia tenebrosa:
os vagalumes estão em extinção.

Não há mais esperança
pra quem tateia cego
o mundo real.

Prateleiras

Em vez de livros,
empilho comidas, produtos de limpeza,
alguns copos, alguns prantos,
fofocas desnecessárias.

A vida é sobre construir muros,
trabalhar demais,
fazer as pazes
como o esquecimento?

Bolo de aipim

Minha vó me dava dinheiro
por baixo da mesa
de vez em quando café
molhado no biscoitinho.

Uma vez, pediu preu acender o cigarro.

Eu não sabia, mas aquele era seu presente
de despedida.

Jardinagem

Tenho pensado em me jogar da ponte,
abrir um buraco no útero,
arrancar a carcaça
e descansar.

Cavar a terra bem fundo
recolher todos os ossos
como se fossem flores
sementes escondidas
promessa de colheita
e abundância.

Abrir espaço para o novo
o corpo sonhando
a vida tremenda
a morte superando
as expectativas.

No fim, um jardim de rosas
cuidado e amado
décadas atrás.

Pracinha

Não conseguia ver o mar,
quando brincava de gangorra.

O peso do corpo
cavava funerais na terra suja.

Lá de cima,
o outro sempre se abismava
com a queda.

*Poemas do livro “desenterrar os ossos”, Macabéa Edições, 2025.