Ana Paraná nasceu em São Paulo (SP), em 1998. Poeta, tem dois livros publicados: “A fruta é doce, mas passou do ponto”, de 2013, e “banal, frágil, carnal”, de 2015, ambos pela Sete Letras. Interessada pelas mais diversas formas de expressões artísticas e a natureza humana, sua obra trabalha, entre poemas e crônicas, as ambivalências, limites e possibilidades do ser a partir das próprias incompletudes. Os textos refletem temas perenes: o amor e seus lutos, a vida e seu avesso, a dor e a miséria de nossa condição em meio à beleza e ao sentido.

FRANKSTEIN

Um moedor de carne
Que corrói e constrói.
Um corpo no lugar do que já foi.

Hoje sou eu, hoje sou muitas.
Pedaços e fragmentos
Do que nasceu e o que restou.

Carta ao amor perdido

Se eu não estivesse em frangalhos
Se meus retalhos estivesse atados
Você teria guardado meu amor

E o torpor que eu sinto agora
O peso de amar e ser impedido
Não teria caído sobre meu corpo

Se eu voltasse no tempo
Nasceria de novo, recauchutava-me inteiro
Pra poder te amar direito

Tons

Cidade
Cinza
Alma
Cinza
Desdobra-se pelo quarteirão

Amor
Vermelho
Sangue
Vermelho
Fruto de trabalho e dor

Céu
Azul
Peito
Azul
Não há porta de entrada aqui

Ego

Tornas-te rei
Com coroa-de-cristo
Tiras a pedra da espada
E da espada a lei

Ferido de guerra
Compensa crimes sofridos
Na inocência de outro alguém

Ferir

Escorre o amargo do ouvido.
Brota o rio dos olhos.
Grita guerra em alto e bom tom.
Veste a armadura escarlate, te apronta pra batalha.
Fere com ponta de faca.
Sorri.
E agradece quem te matou.

*Poemas do livro “banal, frágil, carnal”, Selo Imprimatur, Editora Sete Letras, 2015.