Alicia Duarte Penna nasceu em Belo Horizonte, Minas Gerais, em 1962. Escritora, ensaísta e tradutora de textos técnicos, tem se dedicado aos seguintes temas: produção social do espaço; teoria urbana; história do urbanismo; história da urbanização e da arquitetura brasileiras; planejamento urbano e ambiental; metodologias e processos colaborativos; políticas de espaço, alteridade e subjetividade. Publicou, até o momento, “Duo terno e gravata” (independente, 1984), “Quarenta e dez poemas” (Scriptum, 2012) e “origem-destino” (Impressões de Minas, 2023).

A um passante

Você não é belo ao passar.
Pálido ou indesculpavelmente branco,
cabelos recém-lavados,
óculos espelhados, de corrida
como os de um cavalo,
o aro amarelo mal de equilibrando
no rosto de ossos,
civil, moderna, heroicamente feio.
Traficante, dono da boca, do pedaço?
Não sei, sabe você?
A caminho do Acaba Mundo, seus passos – planos – estão traçados,
como os meus. Em círculos caminho, circunscrita,
ou corro, presa da organização – outra? –
de que preciso, ser-no-mundo vasto e sem solução.
Raimundo poderia ser o seu nome quanto o meu,
em letra para poucos decifrável,
assinados em multidão.

The misfits

Não são os leões indolentes,
perversas as hienas, espertos os jaguares.
Se ousam homens atribuir nomes a animais,
que não os impregnem de indelével,
adjetivadíssima humanidade.
Que diante deles se apresentem
homens
no embate entre substantivos
do qual somente um escapará.
(E soltem os cavalos!)

Obra

Um livro pronto é um retrato
em que não nos reconhecemos,
cena muda e sem orquestra,
still de cinemascope,
pífanos, pratos, motores, colisões,
leões, geleiras, beijos
imobilizados nas folhas de papel
de uma só porosidade e um só branco,
sob letras em seu tipo e tamanho únicos,
envoltas pela capa que deve anunciar tudo de uma vez,
e quarta capa, orelhas,
primeiras pistas para a verificação da veracidade do anúncio,
últimos rumores sobre o poeta novelo e sozinho,
vivente de dentro do que escreve.
E aquela história toda,
neste miolo de 80 páginas e fim:
clique.

Paissandu Hotel

Não há sequer uma placa contando:
poetas se hospedaram aqui e aqui moraram.
No entanto, aqui estiveram eles:
sobre este chão em pastilhas hexagonais,
detrás desta porta pantográfica,
sob a luz da manhã.

*Poemas do livro “origem-destino”, Impressões de Minas, 2023.