René Depestre nasceu em 29 de agosto de 1926 em Jacmel, Haiti. Poeta, romancista e ensaísta, foi um importante ativista político, sendo obrigado a deixar o seu país após a tomada de poder pelo regime militar, mudando-se para Paris, onde estudou na Sorbonne. Publicou sua primeira coletânea de poemas, Étincelles, em 1945.
Em 1959, transferiu-se para Cuba e apoiou inicialmente o regime de Fidel Castro. No entanto, sua decepção com os rumos da revolução — especialmente após o caso do poeta Herberto Padilla em 1971 — levou-o a deixar a ilha em 1978. Antes disso, já havia sido expulso pelo regime de Fulgencio Batista, o que o fez viajar pelo mundo e residir em países como Brasil e Chile. Nesses anos, organizou, junto a amigos como Jorge Amado e Pablo Neruda, o Congresso Continental da Cultura. Na década de 1980, Depestre fixou-se em Lézignan-Corbières, na França. Seu romance Hadriana dans tous mes rêves recebeu o prestigioso Prêmio Renaudot em 1988, consolidando sua posição como uma das vozes literárias mais marcantes da diáspora haitiana.


MINÉRIO NEGRO

Quando o suor do índio se encontrou bruscamente
.     esgotado pelo sol
quando o frenesi do ouro drenou ao mercado a última
.    gota de sangue do índio
e já não restava um único índio
.   em derredor da minas de ouro
voltaram-se para o veio muscular da África
.  e assegurada foi a restauração do desespero
então se iniciou a arrancada para o erário inesgotável
.  da carne negra
então se iniciou a desenfreada investida para o
.  radioso meio-dia do corpo negro
e a terra inteira reboou com o retinir do alvião
.  na espessura do minério negro
e os químicos por pouco não pensaram nos
.  meios de obter com o metal negro
preciosa liga
por pouco as damas não sonharam com baterias
.  de cozinha em negro do Senegal e serviços
.  de chá em maciço negrinho das Antilhas
ou algum audacioso cura não prometeu a sua
.  paróquia
um sino moldado
.   na sonoridade
.       do sangue negro
ou algum valente capitão
.                      não talhou sua espada
.                              no ébano mineral
ou ainda um honrado Pai Noel
.                     não imaginou soldadinhos
.                               de chumbo negro
.                     para sua visita anual.
A terra inteira reboou sob o impacto das brocas
.        nas entranhas da minha raça na
.               jazida muscular
.                          do
.                 homem negro.
Por séculos e séculos
.                       perdura a extração
.                       das maravilhas
.                       dessa raça.
Ó metálicos leitos de meu povo
minério inesgotável de orvalho humano
quantas armas piratas exploraram
a profundeza obscura de tua carne
quantos flibusteiros delinearam sua rota
na rica vegetação dos
.                                     resplendores de teu corpo
juncando-te as idades de hastes mortas
.                                                              e de poças de lágrimas.
Povo espoliado povo resolvido
.                    como terra
.                            trabalhada
povo estraçalhado para o enriquecimento das grandes feiras
.                                                                                   do mundo.
Amadureça o teu grisu no segredo de tua noite corporal
.          ninguém ousará mais fundir canhões
.          e moedas de ouro no metal negro de tua cólera crescente!

DEIXAI MINHA ALEGRIA SAIR PELAS RUAS

Deixai minha alegria sair pelas ruas
Com seus milhares de mãos ternas
Para afagar vossos dias vossas noites
Com suas chuvas estivais suas danças africanas
Seus gritos irrompendo da floresta
Suas árvores musicais suas boas tempestades
Suas lanças de guerreiro negro
E seus milhares de mãos ternas entre a seda
.    de vossas noites estivais ao gosto das garotas.

Minha alegria está solta nas ruas
Com seus mil leões azuis.
Ela deixou seu leito na África.
E é um rio no cio.

Famílias brancas gente de bem
Guardai vossas jovens leoas.
Minha alegria contagia.

TODOS OS RECONHECEM

Em todos os cantos do mundo
os reconhecem
pelo leite que emana de seu riso.

Os reconhecem
por seu coração dilacerado
por seus músculos sem repouso.

Os reconhecem
por suas pernas delgadas
seus pulsos de rijo metal
e pelos rouxinóis que em sua garganta fazem ninho.

Em todos os cantos do mundo.
Negros de tristes tempos.

UMA DEFINIÇÃO DE POESIA
.                                             A Jorge Amado

A poesia é nosso pai que chega ao anoitecer
Sob chuva torrencial e nos murmura
Uma canção plangente que compôs para uma pequenina
Colher de prata.
Nosso pai queria sustar a chuva de setembro com uma
.   colherinha e a tempestade transformou o seu espírito
.   no de um bobo velho.
A poesia é:
.   Um pai haitiano que perde o juízo
.   Por uma colherinha que se fez canção
.   Sob chuva que tomba violenta
.   Vizinha a nossa infância!

TODA A ESPERANÇA DO MUNDO

Poeta ferido em cada porta a que bate
ferido por todo o infortúnio do mundo
a ti resta a alegria de ver ao longe o tempo
em que em cada país
o egoísmo não terá uma só garra
em que em cada casa em cada rua
a hipocrisia será dominada
a humana insensatez terá chumbo em suas asas
e a poesia sairá à rua sem escolta
para um oriente vital
irmão a ser seguido em toda parte.

ADEUS AO TABACO E À FUMAÇA

Assim é: este é meu último cigarro.
No fogo de utopias que envolveram meus dias
a gélida mão do inimigo o acendeu.
Já não sorvo
as serpentes azuis soltas no espaço.
Meus sonhos ferem-se a cada palavra minha.
Apagou-se-me a estrela com a erva dos sonhos.
Charuto, cigarro, cachimbo, longo tempo
envolveram-me a vida em fumaça:
e eis meu destino cinzento
crucificado entre a esperança e a nostalgia.

*Poemas retirados do livro “Seleção”, Editora Hucitec, 1991.
Tradução de Idelma Ribeiro de Faria