André Luís Pires Leal Câmara nasceu no Rio de Janeiro, em 21 de março de 1965. Poeta, jornalista e pesquisador de acervos literários e musicais, é mestre e doutor em Letras pela PUC-Rio. Lançou, pela editora Patuá, os livros Rua sem saída (2018), Desgaste (2020) e Circunstâncias (2023). Escreve letras para canções e mantém no YouTube o canal @poetaandreluiscamara. Produz o Diz um verso aí, um podcast disponível em plataformas digitais. Foi bolsista do Arquivo-Museu de Literatura Brasileira da Fundação Casa de Rui Barbosa (AMLB-FCRB), de 2021 a 2023. Atua nas áreas de assessoria de imprensa, comunicação empresarial, preparação e revisão de textos, além de publicar artigos sobre música e literatura. Morador do bairro carioca de Santa Teresa, é pai da psicóloga Camila Silveira Câmara e do arquiteto e urbanista Pedro Silveira Câmara.

Baudelairismos

Aconteceu, em certa noite solitária,
deu um desgosto besta, vai ver, era spleen,
aquele mal-estar em direção contrária,
uma sensação vazia, perdida, ruim,
me levantei e vi o livro à prateleira
um pouco empoeirado dessa poesia,
é sempre uma surpresa, não se mostra inteira,
maldita flor a cada página sombria,
estouro o pus e abro a lúcida ferida,
passeador hipócrita de ruas vis,
eu subverto o verso tanto quanto quis
me entorpecer de ilusão frágil, de partida,
importa pouco ser feliz ou infeliz
– quebrei a cara – olá, passante, viva a vida!

Souvenir

Trabalho a dez passos
do imponente elevado
que Isabel viu ruir,
Teresa das Sandálias
exibe em sua barraca
um excêntrico souvenir,
e este sangue no esperma
é doença, é bobeira
ou será obsolêscencia da veia,
um amor sem remédio,
sinusite e tédio,
que vontade de rir,
dona Isaura, do Império,
diz que estranha esses prédios
sem janelas para abrir.

A arte de reler Bandeira

Quando seu corpo já não se estender com outro corpo
e restar uma ideia de entendimento com o que chamamos de alma
(e que diabos será isso a que chamamos alma?)
não há motivo pra sair correndo, romper com tudo.
Quem sabe, você entenda melhor aquele corpo
ou talvez jamais saiba como um dia pôde compreendê-lo.
Agora, isso de falar em alma, francamente, é assunto
sobrenatural.

Na intimidade do quarto

Bom poder participar da intimidade do teu quarto,
passear pelos livros espalhados e as fotos na parede,
ouvir histórias de viagens, de planos, de desejos
e desfrutar da alegria de conversa saborosa,
enquanto a vida se instala passageira.

Esboços

Nem sei por onde começo,
nem sempre vale tentar,
andei ouvindo: tá osso,
e vou juntando, aos pedaços,
um quebra-cabeça no ar,
lápis de cera ao avesso,
uma miragem esboço,
preciso arrumar serviço,
me arrisco a rasurar
e me animo no traço.
Carvão, pastel: qual usar?
Depois… nem mais lembro disso.
Pediu impar? Saiu par.

*Poemas do livro “Manacá”, Editora Patuá, 2023.