António Manuel Baptista Barahona da Fonseca, nasceu a 17 de janeiro de 1939, em Lisboa, Portugal. Influenciado pelo movimento surrealista, fez parte do Grupo do Café Gelo, com outros grandes nomes da poesia modernista portuguesa, como Mario Cesariny, Herberto Helder e Helder Macedo. Em 1975 converteu-se ao islamismo, adotando o nome de “Muhammed Rashid”. Foi casado com a poeta Luiza Neto Jorge. A obra poética de Barahona explora, principalmente, os domínios do sonho e do misticismo, e explicitam um anarquismo religioso, onde mescla elementos cristãos, islâmicos e hinduístas.

 

OUTRA PORTA

A memória, afinal,
apesar de insuportável,
é que nos suporta.
A linguagem regressa:
abre-se uma porta
d’água potável:
água de urina, sangue, cuspo e esperma.

Água de nascente
tal como vem escrito nas garrafas de plástico.

SILÊNCIO

Silêncio é uma palavra impossível.
Não corresponde a nenhuma realidade.
Não há silêncio no cosmos
nem em cada um de nós.
Numa sala sem eco,
entre sete paredes de cimento isolante,
ouve-se ecoar a circulação
do nosso próprio sangue.

ESTE POEMA

Este poema suporta o peso do mundo
com todas as religiões ortodoxas e todas as
heteredoxias, todas as dores e alegrias,
todos os vícios, crimes, virtudes, boas ações.

Este poema é uma coluna de fogo marmóreo
vergada ao peso da concentração num ponto.
Chego, talvez, ao fim do meu caminho:
<<talvez>> eis a única esperança de haver um eco.

REGRESSO AO LUGAR

Volto sempre ao lugar do poema
como o criminoso ao lugar do crime
As árvores cobriram-se de cabelos loiros e
só posso apaixonar-me esta manhã

Os cabelos loiros das árvores cobriram-se
de neve e
só posso apaixonar-me esta tarde
Volto sempre ao lugar do crime
como o criminoso ao lugar do poema

Só posso apaixonar-me pela paixão
Volto sempre ao lugar do coração
esta noite
como o sagrado ao lugar do silêncio
A neve dos cabelos loiros das árvores
cobriu-se de nuvens
e chove

SOM DE VISITAÇÃO

Demos um beijo na face um do outro,
senti os teus lábios no corpo todo;
trazias um saco plástico com cerejas.
Passamos o começo da tarde a conversar
com a boca cheia de sangue.

Antes de te ires embora,
tivesse vontade de fazer xixi.
A minha tristeza foi tremenda
na previsão da tua ausência:
escutei atentamente a urina
a cair na água da sanita,
enquanto enfiava pérolas
em fios de lágrimas.

*Poemas do livro “Raspar o Fundo da Gaveta e Enfunar uma Gávea”, Editora Averno, 2011.