Andreia C. Faria nasceu no Porto, Portugal, em 1984. Poeta e ensaísta, é um dos nomes mais reconhecidos da atual poesia portuguesa. Publicou “Flúor” (Textura Edições, 2013), “Um pouco acima do lugar onde melhor se escuta o coração” (Edições Artefacto, 2015) e “Tão bela como qualquer rapaz” (Língua Morta, 2017, Prémio SPA Poesia). Em 2019 publicou “Alegria para o fim do mundo” (Porto Editora, Prêmio Literário Fundação Inês de Castro), volume que reúne todos os livros de poesia anteriores. Em 2020 publicou o conjunto de prosas “Clavicórdio” (Língua Morta), e em 2022 “Canina” (Tinta da China, Prêmio PEN e Prêmio Casino da Póvoa Correntes d’Escritas. O seu livro mais recente, “Canto do aumento” (Sr. Teste, 2024), reúne três ensaios líricos. Um poema seu foi incluído na antologia “Os Cem Melhores Poemas Portugueses dos Últimos Cem Anos” (2017), organizada pelo jornalista e crítico literário José Mário Silva.
BRAVIO
É domingo e uma erva cresce
entre as lajes da varanda.
Improvável,
seca como escamas,
pobre,
arrepiada pelo sol.
Afloramento humilde no betão,
como se bravio
Cristo nos revisitasse
depois de tanto tempo na cegueira das estufas.
CRUCIFIXO
Quem dera à linguagem a nobreza fria,
afundada, do excremento.
Ela existe como coisa ferida, em verdade
renovada e sempre oculta, profanando
as jazidas da imaginação.
Mas depois não se sustém
do abandono inteiro, não sabe
purgar-se, cair em sombra, desaparecer.
Já p’ra não falar do cheiro
que não vem da velha fome de escrever,
fiel e ofensivo, nem da pose
de pau escuro, redivivo,
afiado em grande esforço.
Ninguém leva aos lábios esse crucifixo
que se ergue, em suma,
razão de viver.
COM TODOS OS INDÍCIOS
Em mim, na neve funda do meu ser,
na carne branca e sobreexposta de existir
à vista como uma fratura
com todos os indícios de que me sidera a luz,
em mim fria e apaziguada à superfície
por cutículas de sol, ansiolíticos que trago
dia adentro, em mim o medo é o esqueleto,
a chegada a toda a parte dessa arquitetura
nítida – eu ando em breves ossos
de passagem pela terra.
MELANCHOLIA
De ser humana vou longo maturando o fardo,
estas coisas mal tocadas de sentidos,
virtuais, coladas ao estio, nutrindo
o traço mudo da desintegração.
Em luz e feixes de ossos (pássaros não)
o canto da manhã esclarecida –
longo e acostado aos deuses,
movido de tristeza e mais arestas,
semelhando pedra, humana víscera –
anéis e o mesmo vólvulo
conciso, a maligna (de máquina,
de ourives) intuição.
Podia deleitar-me no pequeno belo, trivial,
em artes mansas de natura e interiores
afeitos, mas tenho da loucura a nódoa
deduzida, dando frutos
plasticamente, um texto puro,
o brilho de lixeiras e pinhais.
Podia crescer casca e ornamento,
ocupação de toda a imagem e prudente
p’lo descorçoado ouvido abrir
na alma um esquife lento –
e como a chuva vou mordendo
em reza as folhas mornas.
AVIS RARA
Dizem que é do clima, que o tempo está a mudar.
O ovo entristece a andorinha.
O corvo já é só um emblema. Lá em cima
os aviões transportam toda a carne
outrora cobiçada pela águia-real.
E o que é que as aves têm que ver com isto?
Nenhuma é rara, se lhe perguntam.
Nenhuma, como eu, acólita
do vento em não-lugares.
CANÍCULA
Reconheço a estrela baça do calor,
o cão que a segura
sobre a aziaga selva de gavetos,
avenidas, varandas que sustentam
planos sem trato nem meditação.
Como Goya esgravatando o surdo adobe
procuro-a, inesperada e náufraga,
vinda da noite num derrame
de pele rósea, quase humana,
o crânio morno dormitando
na disjunta alba, entre as minhas mãos.
Em formas de carne e blandícia,
semelhando humana víscera, a borra
de cidades imortais: falo
de estrelas porque perco do amor a face
e só um húmido nariz me guarda
dos clamores da casa num dia de Verão.
CANINA
Outra criatura se recorta nos meus gestos.
Outra que a devassa
a natureza, a melancólica prática da carne
acesa em lanhos vivos,
beiços, o mínimo arroubo de dentes
no escuro. Outra criatura pousa.
Come e dorme com regalo,
pela tarde beberica
esparsas brisas no caramanchão.
Odeia uns quantos, ladra muito.
Também ama, se entre o medo
um soldado lhe desarticula a alma,
e sente-lhes o cheiro quando à terra
chegam ossos indigesto esplendor.
*Poemas do livro “Canina”, Editora Tinta da China, 2024.