José Alberto Oliveira nasceu em Souto da Casa, Fundão, Portugal, em 1952. Poeta, tradutor e médico cardiologista, publicou 8 livros de poemas, além de várias traduções de língua inglesa, como Edgard Allan Poe, Charles Simic, Frank O’Hara e W.H. Auden. Foi um dos principais colaboradores do livro “Rosa do Mundo — 2001 poemas para o futuro”. Faleceu em 2023.
A MULA
Dirijo-me a vós, irmãos,
sacudidos por caminhos sem mapa,
até as vértebras vos ficarem desalinhadas
e as nádegas em chama –
já para o fim da manhã, enquanto
no fogo fervilha o almoço (um domingo,
mais despido de afazeres)
nunca sentistes um fastio,
como se a roupa vos incomodasse
e a trunfa há muito devedora do barbeiro?
De súbito invioláveis, imunes
a declarações de voto e às solicitações
que enchem a caixa do correio
e à paciência que não tendes para as ler
– crepúsculos que parecem contrabando,
as perguntas que o animal
não consegue poupar aos solavancos
do caminho que escolheu
– talvez por não ter pressa, talvez
por ter o andar cego e a orelha murcha,
talvez por ser um híbrido, de entranhas
secas e apetite honrado.
*
A MANTICORA tem quatro patas:
uma na Opus Dei,
outra no Governo,
a terceira na Maçonaria,
a última para coçar o escroto.
*
ESTÁ À ESPERA que o mundo acabe,
o búfalo.
Ele está ali, desde o princípio.
O arroz, quem o semeia,
o rio, a chuva que nele cai,
as casas, as galinhas inquietas,
os bambus,
que o vento inclina
– tudo isso é transitório.
*
ABENÇOADO SEJA o rinoceronte
que faz tremer a Terra.
Abençoado seja o rinoceronte
que desvenda caminhos
que logo esquece.
Abençoados sejam as patas do rinoceronte
que esmagam bichos daninhos
e ervas benfazejas.
Abençoado seja o corno do rinoceronte
que traça na escuridão
o rasto da sua perda.
Abençoada seja a imaginação do rinoceronte
que lhe ampara a inteligência.
Abençoada seja a couraça do rinoceronte
onde pulgas se afadigam
e garças festejam.
Abençoado seja o rinoceronte
que está numa gravura de Dürer
como um Príncipe da Igreja.
ATRIBUTOS DE UM BODISATVA
Salvífico como o leão
que, ao terceiro dia, instila o seu hálito
nas crias mortas e lhes dá vida.
Benfazejo como a pantera
– depois de jantar, dorme três dias; ao acordar
arrota sonoramente. O seu arroto exala
o perfume das especiarias, que inebria a selva.
Humilde como o lince,
cuja urina solidifica num carbúnculo,
que ele cobre de terra, para o esconder da cobiça.
Astucioso como o castor,
que, em fuga, arranca os testículos com os dentes
e os lança aos caçadores, salvando a vida.
Sagaz como a hiena,
cujo olho, colocado debaixo da língua, prevê o futuro.
Imprudente como a macaca
– carrega o filho que ama à frente; o outro
perdurado nas costas; no cansaço da fuga,
é o primeiro que é obrigada a abandonar.
Casto como o elefante,
que copula de costas, para não observar o ato.
Singular como a formiga,
que um pé distraído esmaga.
POEMAS DO CORVO – 3
Pelas vezes que gaguejámos, quando menos nos convinha.
Por nos apanharem de cócoras, pensando estarmos de pé.
Pelas doenças de que nos curamos e não eram as que tínhamos.
Pela dor que nos trouxe a droga e um alívio efêmero.
Pelas ocasiões em que não mentimos e nos arrependemos.
Pelos amigos que perdemos, sem descobrir qual a perda.
Quando não encontramos o caminho e o caminho não existe.
Quando o inesperado acontece.
Quando a chuva que refresca se torna a lama das estradas.
Quando a indiferença nos incomoda e preferimos não ver.
Quando insistimos no erro e invocamos o destino.
Quando o pontapé falha o cão, que nos tolheu a marcha.
Pela irradiação da sílaba e a ocultação da metáfora.
Pelos devaneios em que escondemos a farsa.
Por tomar um mal menos pela sentença agravada.
Se as mulheres nos desertam e os filhos não se acomodam.
Se a insolvência é bem-vinda.
Se os regatos estão secos e o Verão chega a Novembro.
Se nos falta a astúcia de permanecermos calados.
Se exigimos pagamentos por dívidas que cometemos.
Se fugirmos dos culpados, argumentando estar inocentes.
Quando os dias nos sorriem e pensamos ser devido.
Se o desfecho for triste, como triste foi o enredo.
*Poemas do livro “Bestiário”, Assírio & Alvim, 2004.