Duarte Scott nasceu em Lisboa, Portugal. Viveu no Reino Unido e escreve nas duas línguas. “Exposição” é o seu primeiro livro. Na obra, o poeta cultiva o sentido de forma, aprofunda a centralidade dos sentidos, e medita sobre o significado das coisas, do engate ao luto, levando à poética a um estado de complexo movimento.
COURANTE
Há dias em que os passos / os ritmos que acentuam
a divisão dos dias pelos dias, sem resto /
recuam. Na rua, a roda incessante da dança
avança: e o corpo presente / o corpo distante
que a trança dos braços tranca /
é um elo aprisionado na corrente.
ESCONDIDAS
Disfarçavas mal o corpo com a toalha
e a tarde no seu fim, naquela casa,
dava laivos de mostarda à tua pele.
Fingíamos falar. A voz de seda
que decides relembrar
devera ser de um timbre
que eu não tinha usado ainda.
Mostravas-te escondendo-te,
e eu não adivinhei
que a tarefa, a didascália, nesse dia,
era que eu fechasse os olhos entre os dedos,
como quem conta até dez, ou como quem
chora,
e fosse em faz-de-conta procurar-te.
E, de fato, pela minha parte,
o que recordo
é o volume do teu corpo ali defronte,
forçoso
e devoluto na mortalha.
OS NOMES
são-nos postos, e não dados:
são marcas da vontade de quem teve
primeiro a liberdade de chamar-nos. Pelo nome,
qualquer boca nos segura, qualquer voz
recruta o nosso corpo ao seu serviço, e torna suas
as suas histórias de nós. Mas nós
dois, exilados, por instantes, dessas ruas
reguladas, não buscávamos, eu
de ti, tu de mim, início, meio, fim.
De regresso – não impeço
que a rotina das palavras
se retome – mas suspende-me
de novo esta surpresa
do que ofereço e do que aceito
sem saber, ou ter, um nome.
NOITE
Cada prega que desponta e se dissolve
no lençol afeiçoado à pele do corpo
se faz apenas ouvir,
e aparta-se de mim o som sem pressas
do coração no peito, que descansa.
Lá fora, o mundo vago: a estrada desdobrada,
passeios empedrados e quietos.
Aí se exibirão, daqui a nada,
acrobatas velozes,
zelosos do dia.
Cada pedra se contrai. A estrada aguarda.
Não sei se antecipam, se receiam
o retorno, as vozes
de quem em meu redor acata agora
mansamente a lei do sono.
CICLO DO SONO
Durmo sempre / sobre o mesmo lado:
a metade do corpo que descanso / deixa o coração
suspenso, e um ouvido / atento
aos harmônicos das cordas percutidas.
Sobressoa o timbre esquivo da madeira,
resgatando na memória às melodias
rotineiras da manhã.
Inverte-se o sentido dos sentidos.
Um silêncio / como a própria noite:
a ausência brusca / de sons e luzes /
primeiro ilude / mas cedo cede
e comparecem ecos e matizes,
que dão espessura aos dias mal dormidos
e a cada volta embalam
numa inércia menos certa.
AVESSO
Aguardo em cada tarde o ponto exato
em que o sol, descendo lento a sua linha,
acende nesta sala um tom intenso, a ateia o ar.
Nem sempre estou aqui: mas o calor
imposto à pele lá fora, e que entorpece
as regras e a lembrança de cumpri-las, é o avesso
da sombra que a casa decreta e protege,
ciosa das portas e pedras que esperam por mim.
Nem esquina, nem canto: a hora colore
a noite do dia de noite e de dia.
DEVE E HAVER
Vincada
e desvincada
tantas vezes
a tela
da pele,
o espelho
expõe o trilho
de todos
os sorrisos
que hão-de-vir.
Perda –
ou prêmio –
da idade:
sentir
cada vez mais
que tudo,
ou quase,
repete
ou faz lembrar
alguma coisa.
*Poemas do livro “exposição”, Editora Tinta-da-China, 2023.