Elias Fajardo da Fonseca nasceu em Tebas, Minas Gerais, a 25 de dezembro de 1947. Poeta, escritor, jornalista, roteirista e artista visual, vive no Rio de Janeiro, onde trabalhou nas redações de O Globo, Jornal do Brasil, Bloch Editores e foi chefe de redação do programa de TV Globo Ecologia. Publicou obras de ficção e poesia, meio ambiente e educação. Desde a década de 1980 tem feito exposições de aquarela e pintura no Rio e em Minas Gerais. Há mais de dez anos realiza oficinas de criação literária na Estação das Letras, no Rio de Janeiro.
*
o ex-pensamento
toma assento
na morada
da madrugada
mistura luzes
datas, desejos
como quem junta
farinha e fermento
para fazer o pão
*
verso álibi
desassossego
arma
consolo
gota d´’agua
paragem
imagem
fugidia
verso
carne
sangue
cartilagem
vômito
*
a linguagem
uma longa trajetória
de acertos e erros
por onde sigo
de mão vazias
*
o poeta faz nascer
algo nunca visto
no mais das vezes
destinado
a ser apreciado
por quase ninguém
*
não ganho mais o pão
com o suor das palavras
com elas entoo cantigas
de bem e de mal dizer
busco a expressão
com intenções ocultas
e segredos
ao pé do ouvido
do tempo
no espaço em que me movo
(mares revoltos
ou abençoadas calmarias)
repouso onde a cabeça pende
e durmo onde deixei meus sapatos
*
entardece
rede
varanda
paisagem
recortada
contra folhas de palmeira
que vi nascer
formulo desejos
firmes como a terra
mutantes como o céu
*
em cada curva
o rio nos leva
a lugar nenhum
nos fala
de impermanência
do tempo
da inutilidade do desejo
*Poemas do livro “por assim dizer”, Editora 7 Letras, 2018.