Diógenes Moura nasceu no Recife, Pernambuco. Poeta, romancista, curador de fotografia, roteirista e editor independente, morou durante 17 anos em Salvador, na Bahia, onde fez parte da equipe que fundou a TV Educativa da Bahia. Desde 1989, vive em São Paulo, no bairro dos Campos Elíseos. Foi curador de fotografia da Pinacoteca do Estado de São Paulo de 1993 e 2013, onde realizou mais de uma centena de exposições, publicações, reflexões sobre o diálogo entre fotografia e literatura, contribuindo para o acervo fotográfico do Museu ser reconhecido como um dos mais importantes da América Latina. Em relação à literatura, publicou o seu primeiro livro, “Mingau de Almas ou O Traço Fixo da Loucura”, em 1982, pela Fundação Cultural do Estado da Bahia. Foi premiado pela Associação Paulista dos Críticos de Arte e finalista do Prêmio Jabuti de Literatura, em 2011, com o livro “Ficção Interrompida” (Ateliê, 2010). Com a obra “O Livro dos Monólogos – Recuperação para ouvir objetos” (Vento Leste, 2018), foi semifinalista do Prêmio Oceanos de Literatura.
*
O homem na bicicleta sem o braço
esquerdo corre acompanhando o trem.
Sorri e grita como um palhaço que ri
de si mesmo e do seu braço esquerdo
que não existe. Passa voando por uma
loja de beira de estrada, onde se
vendem relógios, chamada Estranhos.
Um cão sujo se lambuza à beira de um
portão. Desértica, a estação vem a se-
guir entre ferros retorcidos, fuligem
e tendas descartáveis. Todos dentro do
vagão se mexem em direção às cadeiras
de plástico branco. A alegria fajuta
dos passageiros fotografando tudo/nada.
Sob o sol, na varanda, outro homem
sozinho avista montanhas como grandes
bichos pré-históricos, adormecidos.
Bichos e montanhas. Ali, ainda há.
Dentro e além.
*
Outra curva. Duas tardes em teto.
Seria um gol. Uma galinha sobre o es-
pírito-santo. Penas sobre madeira. A
mulher que futuramente será totalmen-
te loura sorri cada vez que sua filha
tenebrosa grita avistando os mapas nos
corpos das vacas. O trem avança em di-
reção aos ponteiros, que agora marcam
10h37. Trilho, água, bambu. “Olha mãe,
olha, já postei no facebook”. Uma fo-
tografia de tudo nada-além. Silencio-
sa, agora a mulher parece outra coisa,
Está sem: cabe dentro de si mesma. O
homem não: parece que é invisível, é
mais uma talisca no banco do vagão.
Toma chá diante da pequena mesa redon-
da. Três dias depois.
*
Minha cabeça dói por trás da janela de
vidro desse mínimo quarto de hotel. O
mercado está fechado do outro lado da
rua. A mulher bem fininha dorme. O ho-
mem em silêncio sobre o asfalto escorre
dentro do meu cérebro. Amanhã o homem
estrangeiro dirá que o retrato do ou-
tro homem surgiu primeiro para inven-
tar uma vida. Mercúrio. Alumínio. Iodo.
Não se trata de uma ficção. Muito me-
nos se trata de uma falácia. Perderemos
a consciência? Quem de nós dirá não?
Por que seremos eternamente retrata-
dos? Somos uma herança de passagem para
o outro? A mulher bem fininha acordou.
Acaba de abrir a porta do elevador.
O homem em silêncio não repousa mais
sobre o asfalto. A mancha de velu-
do vermelha foi transferida. O retrato
de modelo de consumo não empalideceu.
Mercúrio. Alumínio. Placenta.
*Poemas do livro “Fulana Despedaçou o Verso”, Terra Virgem Edições, 2014.