Valery Frantsevich Salatko-Petrishche, mais conhecido pelo pseudônimo Valério Pereliéchin, nasceu em Irkutsk, Rússia, em 20 de julho de 1913 (7 de julho no calendário juliano). Poeta, tradutor, jornalista e memorialista, viveu boa parte da vida exilado no Brasil, no Rio de Janeiro.

Filho de um funcionário das ferrovias siberianas, Pereliéchin residiu entre 1920 e 1939 em Harbin, importante centro ferroviário da Manchúria que, após a Guerra Civil Russa, tornou-se um dos principais polos da diáspora russa. Ali estudou Direito, aprendeu chinês e iniciou sua formação intelectual. Em 1938, ingressou na vida monástica da Igreja Ortodoxa Russa, adotando o nome de Germano (Герман). No ano seguinte, transferiu-se para Pequim, onde trabalhou junto à Missão Ortodoxa Russa na China. Em 1943, mudou-se para Xangai e passou a atuar como intérprete da agência soviética de notícias TASS. Em 1950, uma tentativa de emigrar para os Estados Unidos fracassou, levando-o a permanecer na China. Dois anos depois, em 1952, chegou ao Brasil com sua mãe. Aqui aprendeu português e trabalhou como bibliotecário do British Council, no Rio de Janeiro.

Ao longo da vida, Pereliéchin publicou treze livros de poesia e uma autobiografia em versos. Traduziu poesia chinesa e brasileira, sendo reconhecido como um dos grandes mestres do soneto em língua russa. Também deixou importantes memórias sobre a vida literária dos emigrantes russos na China. Em 2018, suas obras completas foram publicadas em Moscou. Sob o nome de Valério Pereliéchin, publicou uma coletânea de poemas em português e traduziu para nossa língua os Cantos Alexandrinos, de Mikhail Kuzmin, poeta russo que, assim como Pereliéchin, abordou em sua obra a experiência homoafetiva.

Valério Pereliéchin faleceu no dia 7 de novembro de 1992, no Rio de Janeiro.

UM CONSELHO

Um dos corruptos, que se diz eleito,
Subi ao teu herdado paraíso,
E logo, com irônico sorriso,
Vim subverter o velho preconceito.

Vais deixar, que o brilhante contrafeito,
Prestidigitado na hora, de improviso,
Te seduza, vacilante, indeciso,
Que o terremoto te sacuda o leito?

O teu Éden na margem deste rio
Verias desabitado e sombrio,
A mata transformada num deserto –

Sem balbuciar de crianças, sem brinquedos…
Vai permitir que fique assim tão perto
O destrutor dos divinos vinhedos?

O CANIBAL

Sou canibal. Começarei a festa
Por Paulo que parece um jovem rei:
Cortando o seu corpo, eu me vingarei
Desse, que me despreza e mais detesta.

Chega? Mas não, que a faca seja honesta!
Vem cá, Francisco, não te eximirei:
Andas também redondo como um frei
Que almoça bem e dorme bem na sesta.

E há mais um que se chama de Livanos,
Magro para os seus vinte e tantos anos –
Doce na sobremesa, eu o pressinto!

Três carnes, três tamanhos, três sabores,
Pregusto-os com o meu olhar faminto,
Quando se afastam pelos corredores.

NEM NADA, NEM TUDO

Como eras ontem? Um rapaz bonito,
Bem donairoso, sem pelos no peito
(Contra os peludos tenho um preconceito,
Não o confesso, mas sempre os evito).

Hoje, soube, no recontro bendito,
Que o eleitor igualmente foi eleito
Pelo dono desse rosto perfeito
Que, por acaso, se chama Expedito.

Que posso esperar? Nem nada, nem tudo:
Um banquete no teu torso carnudo
De um simples cearense de dezoito anos.

Um episódio para ser lembrado,
Ou mais um dos ligeiros desenganos,
Que me reanimam o sono estagnado?

UM MOMENTO

– “Vai me fotografar?” – Sim, que é preciso
Captar um dos fragílimos momentos
Para exorcizar os tristes eventos
Com esta lembrança do paraíso,

Desfazer ameaças com teu sorriso,
Com carinho – espetáculos ciumentos,
Noites – com meio-dias mormacentos,
Cronos – com permanência de Narciso.

Perpetuarei no quadro da cachoeira,
A glória humanamente passageira,
A flor na mão, o negrume dos pelos –

Sem farrapos do calção apertado,
Transformando-te no melhor dos elos
Entre a imortalidade e o teu passado!

AO ANJO ATEU

Por que razão, nos verdes anos teus,
Renunciaste à fé consoladora:
À semelhança do filho da aurora
Levantaste bandeira contra Deus?

Não sendo um dos ricos epicureus,
Gordos beneficiários da Pandora,
Por que respeitas e não jogas fora
A prosa negativa dos liceus?

Um receptáculo de porcelana
Não se destina à coisa tão profana
Como flores de pólen venenoso,

Que se reservam a malsãos pauis.
… Será que Lúcifer, o anjo teimoso,
Tinha também estes olhos azuis?

O CANHOTO

– “Assim não dá!” Tu deves escrever
Com outra mão, ou ficarás sem nada.
Qualquer mister, tarefinha qualquer
Para o canhoto é cousa complicada.

Viver é bom – somente para quem
Se mistura com outros, não se isola,
Que, caminhando aqui, não olha além
Do seu trabalho, do bife, da bola.

Há graça nos bailes de carnaval,
Na conversa leviana sem mistério
E no puxar a mulher do rival
Pelos alegres bosques do adultério,”

– Bem entendi, que homem normal é rei,
Mas sou canhoto, e o continuarei!

ACRÓSTICO

Daqui a um mês, eu estarei de novo,
Apaixonado, vulcânico e fiel,
Na fazenda, com todo aquele povo –
Incontentável, como o chupa-mel!
Espera-me, que volto e te comovo,
Lambendo o melado de teu tonel.

*Poemas do livro “Nos Odres Velhos”, Edições Jabuticaba, 2025.