Jan Wagner nasceu no dia 18 de outubro de 1971, em Hamburgo, Alemanha. Poeta, ensaísta e tradutor, é um dos principais representantes da poesia alemã contemporânea, tendo recebido diversos prêmios, como o “Georg Büchner” e o “Leipizig Book Fair”. Em 1995, junto com Thomas Girst, iniciou o projeto de poesia Außenseite des Elements – eine Loseblattsammlung internationaler Lyrik (O lado de fora dos elementos – uma coleção de folhas soltas de poesia internacional). Traduziu autores como Charles Simic, James Tate, Simon Armitage e Matthew Sweeney. Atualmente vive em Berlim.

prego

mal na parede e já era o centro,
lançava seu raio para fora
dos quintais, campos, celeiro
de nabos, das granjas, da horta

de rabanetes, ficava mais amplo, mondial:
pendurávamos os chapéus, agasalhos
de lã, capa e guarda-chuvas, molduras,
até que o esquecíamos, daquele olhar

duro ainda ali, quando já tínhamos
nos mudado e cidade e casa e rua
já haviam desaparecido – lá em cima tão firme,

tão brilhante sobre leste e oeste,
que serviria para navegarmos no escuro
e a velhos marinheiros de consolo.

amoras

tão escuro e doce suco, que córrego
acima sobrevoam os morcegos
rentes à folhagem, como céleres tesouras
pretas, para podar as frutas, devorá-
las no seu voo, o sol atrás de jaffa trôpego,
e tudo, o que se cogitar queria cogitou-
se mais estreito, menor que o porta-
luvas… diz: amoras, e outra vez amoras,
.                                            tão escuro e doce
basta a palavra na boca – e logo
acordam, buscam proliferar com o eco
de sombras de um milhão de asas,
pendem de dia em seu sono, em cachos
gordos e pesados sob o teu teto,
.                                            tão escuro e doce.

morchella

em algumas tardes retorna e catinga
num jardim, na esquina de uma
estação de trem qualquer – um tanque
de gás vazando, um cadáver no fundo

do porão duma sebe -, como em setembro
outrora, quando o chapéu branco pairava
no bosque entre as moitas, as moças riam baixi
-nho e o nosso rosto ardendo, há pouco

ainda crianças, agora já menos que crianças,
rindo, aos guinchos, corren-
do para casa, pro futuro, partos, núpcias,

ao desconhecido, quando o vulto se acua ao seu clima,
velho homem pobre e imundo
com vento na cabeça, e um paletó de folhas maltrapilho.

lençóis

o avô foi embalsamado
nos dele e levado para fora,
um ano depois o encontrei,
ao trocarmos a roupa de cama,
vespa enxovalhada, minúsculo
faraó de um verão remoto.

assim dobravam-se lençóis: os braços
abertos, até passarmos a espelhar-
nos por cima da superfície tesa;
daí o foxtrot dos enxovais até que passo
a passo um retângulo desapareça
em outro menor e os narizes quase

se toquem. tudo podia estar coberto
em seus interiores níveos: um frasco
vazio com perfume de assombro: um par
de flores de lavanda ou flores do campo,
um centavo e ora ou outra um lance
de naftalina em seu ninho.

mas agora repousavam surdos
e brancos em seus armários, toda
uma pilha deles, de molho em perfume,
finados, passados, refeitos,
dobrados com afinco como paraquedas
antes de um salto de alturas imprevistas.

ensaio sobre mosquitos

como se todas as letras tivessem
de repente se descolado do jornal
e pairassem no ar como enxame;

e se pairam no ar como enxame,
de todas as piores notícias nenhuma
trazem, musas mesquinhas, pégasos

mirrados, assomam-se apenas no ouvido;
composta do último filamento
de fumaça, quando a vela se apaga,

tão leves, que já não se diz: elas são,
surgem quase como penumbras,
projetadas de um outro mundo

no nosso; dançam,
os membros mais finos que traçados
a lápis; minúsculos corpos de esfinge;

a pedra da rosetta, sem a pedra.

coruja

quieta como uma urna – até que os urros
ao alto sobre as frontes
nos detêm, curiosa, como se algo urrasse
através dela; em vestido de plumas cobre

ou castanho sentada entre os galhos,
com um véu níveo, fino como o míldio
e a renda de bruxelas,
esparge graciosos amuletos

de sua plumada,
mal se vê, antes se sente;
a pedra angular no grande domo da ramagem;

uma fresta amarela e mais uma amarela fresta,
dois olhos atrás das portas com tapeça-
ria de cortiça, então a floresta. a floresta. a floresta.

*Poemas do livro “variações sobre tonéis de chuva”, Edições Jabuticaba, 2019.