Igor Calazans Abreu nasceu em Niterói, no dia 22 de abril de 1986. Poeta, jornalista, professor e produtor cultural, tem seis livros publicados, além de participações em importantes antologias nacionais. Em 2014 foi considerado uma das principais revelações da poesia brasileira, através do “Prêmio Sarau Brasil”. Seus poemas foram traduzidos e publicados em diversos idiomas, inclusive línguas árabes. Em 2020, sua obra foi estudada em colégios públicos de Santa Catarina, a partir do projeto “Poesia na Escola”. É neto do poeta baiano Nemecio Calazans e, em 2022, recebeu da Câmara Municipal de Niterói, a Medalha José Cândido de Carvalho, mesma honraria que seu avô ganhara 30 anos antes, em 1992, por seus feitos literários e contribuições culturais. Editor de RecantodoPoeta, há seis anos ministra a oficina de poesia LaB Poético, além de apresentar os saraus Epoché, Ode ao Poeta e Roda de Poesia, todos no Rio de Janeiro.

Causa Natural

Se eu fosse um peixe
morreria afogado.
Se fosse formiga,
morreria soterrado.
Se fosse um pássaro, no ar,
morreria asfixiado,
mas, como sou humano,
eu mato.

A Realidade Sangra

A chaga fechou,
mas ainda sangra.

A vida velou,
mas ainda sangra.

O tempo parou,
mas ainda sangra…

Nada pode estancar
o sangue de quem fere.

Micro-Rito da Paragem

Jogar para ver onde bate.
Tirar para saber o que fica.
Tocar mais perto
e sentir o que falta.
Gesticular para quem alcança
e acompanhar… quase parando…
até não perder mais.

Epílogo

Poeta de mão cheia
e bolso sempre vazio.
Adulado por mil tapinhas nas costas,
açodado por aplausos e elogios.
Mas, na alcova, em cima da cama,
descansa enterrado vivo
sobre os fósseis amontoados
das capas dos seus próprios livros.

Calvários

Ah, criatura,
como crava convicto sua alma
em carne crua?
Pode-se dizer incrível
quem custa acreditar e se acostuma?
Descobrem crimes contra as crenças cruéis,
cruzam os braços como crianças,
querem coibir a crucial falcatrua,
onde o altruísmo é um sacrifício,
onde crescem as preces
enquanto curvam contritas culpas.
Não seremos encontrados
senão em crateras,
com os crânios quebrados,
corpos massacrados,
cremados nas crostas do inferno…

– CRUZ CREDO!

Erro crasso é o sacro ciclo
do prazer escravo,
cansado de ser crucificado
por pregos presos aos crivos,
coroando cristo em calvários.

Branco a Limpo

Um poema passado
Em branco
Para uma história passada
Em branco.
Quando as palavras passadas
A limpo
São das sujeiras do passado
Em branco,
Limpa-se como?

Se Não Me Engano

Por todos os que morreram em nome do verso,
que não deixaram títulos sobre as mesas sagradas,
que perderam o sono no desterro,
que lutaram contra entes fantasmas,
que atiraram pedras no vazio do templo,
digo: estamos certos, se não me engano.
As míseras suspeitas são milagrosas,
mesmo abertas por palavras indigestas,
mesmo lesadas pelo conformismo,
mesmo as famintas que diriam qualquer coisa por uma sobra,
digo: estão vivas, intocáveis.

Para os que hão de existir,
para quem partir de repente,
para tudo que está por vir,
saibam: um verso guarda em si
o que ninguém espera de nós.

Incólume

Incólume,
inexpressivo gosto de nada.
Saliva pra dentro,
no cuspe da boca,
indecisas e invioláveis marcas.
Afronta indireta que aborda
o fio final do esboço,
como os desvios das leis naturais
decretam a imagem dos loucos.
Cercos das anomalias exatas
nos gritam a soma secreta
das pessoas insossas no caos,
isoladas nos restos da terra.
No ventre da besta inócua,
onde as coisas decidem-se avaras,
a tez, febril, perigosa,
não abre a própria camada,
quando a vida, seguinte da morte,
nasce no tempo mais forte
para ser novamente
inventada.