Stefanie-Lahya Aukongo nasceu em Berlim, Alemanha, em 1978. Poeta, performer, educadora e ativista política, desenvolve projetos voltados à juventude, à arte e aos direitos humanos. Filha de namibianos exilados na Alemanha durante a ocupação sul-africana da Namíbia, sua poética se debruça sobre as diásporas africanas e os territórios de fronteira entre a Europa e a África, explorando temas como identidade, pertencimento, racismo e corporeidade. Artista queer, neurodivergente e ligada à cena do slam, é reconhecida internacionalmente pelo ritmo e pela intensidade de suas performances, que reforçam o caráter político de sua escrita.

Azul-púrpura

Eu tenho um sonho
de tempo
de esperança
de dia
nas nuvens

De noite, eu durmo
sempre em horas irregulares
em sonhos profundos
mas
com um olho aberto
Então vejo um céu azul-púrpura
sinto o cheiro da violência nas mentes
De noite, conto medos

Perguntas nubladas

Quando a esperança vira a esquina
você a perceberia?
Você a cumprimentaria?

Você me confiaria um pedaço do seu coração?
Você entregaria seu coração a alguém,
quando esse momento chegar?

Isso vai ser mesmo suficiente?

Consultoria para quem deve

Dizem que África está atolada em dívidas.
Dizem que África está altamente endividada.
Dizem que África deve ter suas dívidas perdoadas.

África diz:
Não vamos pagar nossas dívidas.
Porque nos devem muito mais
do que nós jamais devemos!

Olhos de um instante

Guerra chama guerra
Tanto a pequena quanto a grande
Ela se infiltra
No coração, no campo de batalha
Olho por olho
Dente por dente
No final, eles não se encontram.

Chuva

E você me pergunta:
consegue fazer chover?
Consegue?
Enquanto me olha
Expectativas salgadas escorrem pela sua face
E mais uma tentativa.
Tanta coragem nos seus lábios
Nos seus lindos lábios negros
Você consegue fazer chover?
Consegue deixar as lembranças irem embora feito correnteza?
Por favor!
E eu digo:
Não, um ovo mexido com queijo de ovelha, isso eu sei fazer
[bem.
E daí você diz:
Ah, isso também serve.

Sentimentos de mãepreta

Sou mãepreta
O parto foi difícil, longo, branco-dor
branco é a cor da dor
Eu me dei à luz
No dia em que comecei a amar a criança dentro de mim

*Poemas do livro “Nada além de flores”, Relicário Edições, 2026.
Traduções de Jess Oliveira e Raquel Alves