Carlos Fernando Fortes de Almeida nasceu no Rio de Janeiro, em 11 de maio de 1936. Poeta, escritor e psicanalista, colaborou ativamente no Suplemento Dominical do Jornal do Brasil. Venceu o Prêmio Olavo Bilac de Poesia, com o livro “Canto Pluro” (1968), além do Prêmio Literário Nacional Pen Clube do Brasil de 2013, com a publicação de De olho na morte e antes (2012). Fernando Fortes faleceu no Rio de Janeiro, no dia 6 de outubro de 2016.

QUASE DORMINDO

À noite, na cama,
quase dormindo,
repenso um verso mal escrito
que deixei no rascunho.
Tenho medo de dormir e esquecer
a emenda;
tenho preguiça de sair da cama e emendar,
vou e volto na imaginação.
Melhor o sono que o soneto.

ELO PERDIDO

Os olhos aflitos
do cão faminto
me fitam
implorando compaixão.

Mas nem todo pedido
merece satisfação.

De que fome sou cão?

RESIGNAÇÃO

A sombra do tempo
segue adiante de ti.
Inútil tentar alcançá-la
fingir que a não vês.
Deixe que ela te ensine
o caminho da casa
que te guie amiga
ao leito da terra.

CATIVO DE SI

Por que viver
se já não amas?
Por que amar
se não te ama ninguém?
Mas se não te amam
é que não te amas mais;
e se preferes não te amar a que te amem
para não ter de dar o amor que tens,
deita na cama e deixa-te morrer
como um refém qualquer.

RELENTO

À noite
no pomar da estância
os cedros se alinham
em fileira
– sentinelas
vigiando muros

PASSEATA

Os ladrilhos da varanda
são losangos vermelhos
Ao corrimão de madeira
se apóiam braços
brancos
escuros
Esperam o que vai passar
ou talvez passasse
àquela hora do dia

MECÂNICA CELESTE

O suicida traz ao chão os astros,
puxa do céu os cordéis da vida.

*Poemas do livro “De Olho na Morte e Antes”, Ateliê Editorial, 2012.