Thiago Ponce de Moraes nasceu no Rio de Janeiro em 1986. Poeta, tradutor, professor e psicanalista, foi finalista do prêmio Jabuti, com o livro “Dobre sobre a luz” (2016). Publicou ainda “Imp. (Caetés, 2006), uma fotografia (Leonella, 2017), Espacelamentos (Urutau, 2023) e Limites do diáfano (Primata, 2024). Entre suas traduções, a mais recente é da obra do poeta palestino Najwan Darwish, “Um garoto de Haifa gira a palavra” (Urutau, 2024). “Celacanto” (Círculo de Poemas, 2026), é o seu livro mais recente.
*
ENTÃO chama
a isso poesia será possível
uma viga ausente
de voz uma coluna oca
corroída no fundo do mar
a vida
já basta a cor descamba toda
pro azul chama
e nunca chega
vestida pela sua boca
perco a voz quando você sem entender
perco quando acabo de lembrar
uma coisa estranha extrema
uma viga ausente
acontece diante destas palavras um presente o
antes do amor
num espaço improvisado
escorre num sentido mais
amplo com
que se parece
a linguagem
viscosa fluida
sem origem
inexata
*
VIVER
aos poucos
recolher os membros
entre escombros
escondê-los dentro
do casco
como um animal
romper a casca
que nos embala
prestes à vida
ter com a terra tato
e manter o trato
do que nos é legado
ao nascer
*
FAZER UM furo
no futuro
lançar uma bomba
ao futuro
tentá-lo
abrir no escuro
outro escuro
abrir no claro
o obscuro
buscar no mundo
o inseguro
e frágil
deixar que o tempo
assegure
que nada e tudo
são figuras
estampadas
do mesmo lado
. miragem
um buraco
neste futuro
raro e absurdo
sem grumo
ou núcleo
*
AS MIGRAÇÕES que realizam teus pássaros
peixes nuvens
cartas endereçadas a quem a ninguém
despedidas a meio caminho
despedaçadas
sem tino ou destino
cada palavra ave pronúncia
nada daquilo que leva revela
*
AGORA
hora sem borda
horda de pensamentos
abismos abertos no rosto
todos os poros
virados para fora
de um corpo
diante de outro
que só pode
nesse pouco e parco
lapso sem memória
ínfimo traço de tempo
em que nenhuma vida
avança
. feito síntese e explosão
símile do que seria
enquanto
dança o instante
à sombra da própria vida
. agora
. cheio de dobras
. hora de finalmente
. regressar
*
QUANDO UM CELACANTO
no fundo mais fundo
de uma lembrança
um celacanto contra
a pressão absoluta
do fundo do mar
contra a lógica
do tempo
até mesmo
contra o próprio
tempo
antes
um ancestral
imemorial
um animal
mais lento
lento
na escuridão
de presença tal
que quase prescinde
da luz
que forja da luz
sua remota
pulsação
ante
sua limítrofe
existência
fóssil
lentamente
difícil
*Poemas do livro “Celacanto”, Editora Círculo de Poemas, 2026.