Jean D’Amérique nasceu no dia 4 de dezembro de 1994, em Côtes-de-Fer, Haiti. Poeta, dramaturgo e romancista, é considerado uma das vozes mais importantes da nova geração de escritores caribenhos. Conquistou reconhecimento internacional por uma escrita que combina lirismo e contundência, atravessando o íntimo e o coletivo. Sua arte é caracterizada pela resistência, mas também a busca por abrigo, um espaço seguro dentro de si, que seja capaz de sustentar a esperança e, ao mesmo tempo, acolher a vida diante das adversidades.

*
com a força dos rios
minha cartografia
coral de balcões
que acorda as cidades caladas

ó garrafas
eternos cadáveres
que nascem das minhas noites

montada em minha juventude
cavalgo desembestada
rumo ao imenso

*
os pássaros me educam
às alturas do possível
e os vazios todos
e as noites todas
e as quedas todas
se curvam ao meu caminhar
que bênção

*
mastigas eu sei
mastigas bem
a ideia de me tomar

baba
em minha vontade

mas antes
tomarás gosto
pelo meu cuspe

*
sou a maior expectativa de vida dos meus prazeres
o lábio mais pobre do meu hemisfério vaginal
o pelo mais rico das minhas axilas

a menos que
seja fedorento o vocabulário
do mundo moderno

*
luz-supermercado
meu pássaro arrebata
à mão armada de sonhos coletivos

olha lá a pobre coitada compra no crédito
sim pode acreditar eu acreditei
enriquecer
com o lucro da dúvida comum

*
é belo meu sangue perdido
no mato o desatino
é belo meu sangue eleito
no fogo os ventos
opostos

espalhados meus pedaços
guimbas nas ruas
da última infância

*Poemas do livro “Algum país entre meus prantos & Rapsódia vermelha”, ARS et VITA, 2025.
Traduções de Thiago Mattos e Henrique Provinzano Amaral