Guilherme Gontijo Flores nasceu em Brasília, Distrito Federal, em 1984. Poeta, tradutor e professor de latim na Universidade Federal do Paraná, é um dos mais conceituados autores do país na atualidade. Vencedor dos prêmios APCA e Jabuti de tradução, com o livro “A anatomia da melancolia”, de Robert Burton, também já ganhou o Prêmio Paulo Rónai, da Fundação Biblioteca Nacional. É coeditor do blog e revista escamandro: poesia tradução crítica). Além da tradução, nos últimos anos vem trabalhando com a performance musical de poesia greco-romana, junto ao grupo Pecora Loca.

Prestidigitações

Veja agora que mostro:
nada na mão esquerda,
nada na mão direita;
repare no silêncio
porque não faço truque

(tudo é verdade, mesmo
no dedo que retiro,
nas meninas que miro
a faca, nas meninas
que corto em placas,
nas meninas que sumo
em caixas, nas cartolas
que soltam bichos presos).

Veja que agora exponho
dedos na mão direita,
dedos na mão esquerda;
repare: não são meus
os dedos decepados

(nada persiste mesmo
muito tempo na cena,
cumprimente a assistente
e oferte os pedaços: nada
é realmente dela,
nada no sangue pode
passar de tinta e corpo).

Veja agora que indico
num gesto pouco claro
o cano em tua nuca:
sonhe que saltam flores.

Isto

Pegue isto que digo
(eu sei, escapa),
pegue isto que dito
pela culatra,
pegue isto que, dito,
ainda grava
na pele que irrito,
isto que rasga
tudo quanto é inscrito
e quanto escapa,
pegue isto que cito
como uma marca-
d’água no olho aflito,
que se desata
entre sangue e grito,
o que te vara
toda vez que insisto:
isto que mata.

O caule que aqui finca

Andei cortando bambu
pra vocês, meus pequenos.
Suponho que vivi.

Esta tapera transida
no amanhã ficou
enfim de pé.

Não labutei no mutirão: vocês
não fazem ideia
dos alguidares onde
botei a areia ao meu redor por anos
por mandos e modos. A de vocês
vem do ar livro – segue
livre.

O caule que aqui finca o pé amanhã
ainda está de pé aonde quer que
a alma jogue a jogar vocês no des-
vínculo.

Crianças de Kozara

Como nós, recolhidos e enviados
no entremeio da névoa da manhã,

todos também teriam de exaustão
e medo e tifo e breu uns poucos passos

por escolher, comer e não morrer,
por escolher, comer essas cartelas

de papelão, trazidas como um erro
junto ao pescoço, desfazendo nelas

o nome que nos deram e na fome
extinguindo a palavra em contradom?

.                                                                       p/ Nina Rizzi

Cruzo estas portas

Cruzo estas portas, estranho-me o asco
de sempre, dou corda à caixa de música
que está quebrada: a bailarina brusca
nas rotas insólitas de outro fiasco
risca seu ruído qualquer de plástico
alheio; não, nada naquela acústica
parece errado, como sai o pus da
veia cística, ou marca de tabasco
presa na camisa listrada; estranho
que isso tudo tão certo seja; excito-
me como moleque no canto, fanho
como um tiro errado, ganso balístico,
põe o agasalho inútil, garro ranho
preso nas botas (as portas): persisto.

Ausculta-se um coração

Ausculta-se um coração arrítmico,
feito bomba que hesita, feito a baça
compartimentação de uma lembrança
de um museu que queimamos, só por risco.
Extraí-lo do meio desta fossa,
dentre carne e costela distraí-lo
é o morte que resta, ódio e asco,
feito porco que saia da lambança?
Assim seja: ruína em meio à praça,
vida estanque, o porão do mesmo paço,
onde os corpos se empilham, onde posso
entrar e sair sem peso, onde penso
encontrar o meu crânio, donde expulso
toda a lembrança, a lambança, a leprosa
chaga do dia que ao chegar mais pesa.

Inverta-se o olhar na árvore

Inverta-se o olhar na árvore,
destronque-se do cerne a ser na ponta:
ela está certa se esperta-se, oferta-se ávida,
avessa e árida a quem a atravessa.

Meça-se a folha por quem olha
demorado do lado de fora,
o ar é sua área, sua arena
fotossintética, sua ética

é que devore o ar inverso
o arreverso no carbono,
o ar áfono, o diáfano
correndo seiva adentro.

É um armarinho de modos,
nesse caminho todas se moldam
rumo ao galho, ao ramalho
que fazem como face da árvore.

Uma rama a outra ama
a cada encontro, do feixe
faz-se o tronco, e no estanque
aparente encontram a terra

e se aterram na espreita da água inversa,
céu acima, seiva ao cimo,
deixa que o olho se molhe a corre à farta,
seja pupilo da pupila, a água correlata.

*Poemas do livro “Potlach”, Editora Todavia, 2022.