Lucio Mariani nasceu em Roma, Itália, no ano de 1936. Poeta, ensaísta e tradutor, é autor de oito volumes de poesia, além de traduções de poetas como César Vallejo, Tristan Corbière e Yves Bonnefoy, para a língua italiana. Mariani se destacou por uma poética da dúvida, onde a palavra luta com a ausência, o desejo com o abismo, em formas inovadoras que desorientam, enquanto o autor analisa a condição humana na recuperação do valor perene do mito.

Lucio Mariani faleceu em 02 de outubro de 2016, em Roma, Itália.

CONTESTE

Você perguntaria se Eu chegasse atrasado.
Esse é o problema para pessoas presas
entre a segunda e a última faixa.
Eu estou em uma perseguição solitária.
Então, quer Eu esteja adiantado ou atrasado
depende unicamente do descontentamento do dia.
Para pegar a batida bati palmas uma ou duas vezes,
antes de salpicar meu rosto com partículas
de felicidade. Por acertar. No escuro.

O GESTO

Mais uma vez, mais uma vez o marinheiro
me surpreende, repetindo o gesto milenar
de ficar no meio do barco não antes
do amanhecer de um novo Delos e o céu
roçar seu ombro para mostrar sua habilidade
enquanto ele gira uma rede que lentamente desliza arredondada
nas ondas e mergulha até o seu destino
até enxames de peixes e algas marinhas
até as câmaras das sereias piedosas.

NA LÍNGUA

Mulheres e especiarias podem permanecer na língua
mas esteja atento aos seus portos de origem
do ângulo em que são atingidas pelo sol
e o luar, das artes que as confundiram
e as muitas mãos que favoreceram o seu encontro,
de como as formas que você usa ou usa indevidamente
vai aparecer em seu sorriso.

NA GRAMA

Uma cama de deliciosas folhas me inflama.
Sua língua de outono se expande
pela minha pele em dobras de veludo, com ternura
irrigando meus sonhos. Meu pequeno coração
bate como um louco, na veia malva que incha
a raiz e se estende até a treliça que brota.

VOCÊ DIRÁ

Eu vivo o seu amor na sua ausência
meu amor
costurado trama
a trama de um fio invisível
pulsa interminavelmente de silêncio.
Isso não é amor, você dirá, que a dor
não sofrida, embora temida,
não é dor. Você, que ignora que a morte se instalou
e confia no rótulo de cada garrafa.

*Poemas do livro “Traces of Time”, Open Letter, 2015.
Tradução para o site de Igor Calazans