Gastão Santana Franco da Cruz nasceu em Faro, Portugal, em 20 de julho de 1941. Poeta, professor, crítico literário, encenador e tradutor, integrou a publicação coletiva “Poesia 61”, marco fundamental na renovação da linguagem poética portuguesa da década de 1960, ao lado de Casimiro de Brito, Fiama Hasse Pais Brandão, Luiza Neto Jorge e Maria Teresa Horta. Tradutor de autores como William Blake, Jean Cocteau, Jude Stéfan e Shakespeare, destacou-se pela amplitude e rigor da sua obra.
Em 2002, recebeu o Grande Prêmio de Poesia CTT – Correios de Portugal, atribuído pela Associação Portuguesa de Escritores (APE), pela obra “Rua de Portugal”. Em 2009, conquistou o Prêmio Correntes d’ Escritas com A Moeda do Tempo. Mais tarde, em 2019, voltou a ser distinguido pela APE com o Grande Prêmio de Poesia Maria Amália Vaz de Carvalho, pela obra “Existência”. Nesse mesmo ano, a 8 de novembro, foi agraciado com o grau de Grande-Oficial da Ordem do Infante D. Henrique.
Gastão Cruz faleceu em Lisboa, no dia 20 de março de 2022.
GRAVURA
Ourives-gravador era o ofício
do meu avô paterno: sobre mesas
dispersos utensílios buris limas
por entre chapas e, há muito, objetos
acumulados; lembro-o curvado
com a luneta, fixamente olhando
a dura mão que no metal gravava
por encomenda nomes: desenhava com
força as linhas do seu significado
como se para alguma eternidade
ilusória as gravasse, assim o poeta
com o buril inscreve na deserta
chapa do mundo não interpretado
o sentido precário de o olhar
IDADE
Entre margens de fumo fluem
rios
Um filho
vê nascer de dentro do vulcão
a lava
do seu corpo em mares
circulares
o príncipe
das rodas consteladas
A sua idade é essa Ele é
o próprio jorro
de fogo onde lançara
a vida como um erro procurada
LITANIA PARA UMA CASA
Uma casa morreu
quem pode usá-la agora?
Alguma coisa nossa
ficou nela e nós fora
De madrugada, cega,
perdeu-se junto à costa
não quero vê-la mesmo
que vê-la ainda possa
Existe mas morreu
ancorou numa rocha
o vento que a fechou
fechou-nos a nós fora
Não quero vê-la nem
que vê-la ainda possa
dentro dela ficou
alguma coisa nossa
EM TEMPO ALHEIO
Demasiados mortos para a
minha memória
O dia está aí um projetor nos rostos
que repetem
cenas, deslocando-se entre os móveis
polidos pelo amor e as árvores, com falas retardadas
Não há quem sobreviva a ninguém no cenário
são somente aparências o que está
e o que falta,
todas em cada um,
enquanto ausentes o habitam como casa
em tempo alheio
Deixastes toda a esperança vós que entrastes
na memória
A MOEDA DO TEMPO
Distraí-me e já tu ali não estavas
vendeste ao tempo a glória do início
e na mão recebeste a moeda fria
com que o tempo pagou a tua entrada
NÓS O MUNDO
O mundo acabará quando não formos nós
o mundo: tudo existe
somente no olhar; gente passa
diante da esplanada no final de
julho quando ainda
os pulmões do verão inspiram o vapor
espesso do corpo como de alma um resíduo
e expiram o ar que seca o espírito:
este rodar de
gente e de estações
iludindo o sentido a que acedemos
devagar, tarde para
o conhecimento que poderia ter-nos
mudado a vida; prosseguimos
sem crença nessa via
olhando os corpos, sobretudos os
nossos plural que guarda
a dúvida de que a
extinção do corpo nos atinja
sozinhos, o mundo somos nós
di-lo a poesia recordando
os sentidos quando o mundo
perdiam, ou julgamos agora
que perdiam o que rapidamente
atravessava o desejo do dia: nada
o extingue, o desejo de que o fogo
a exata metáfora seria, porém
não vou usá-la apagarei os
versos como um dia
os irá apagar o mundo reduzido
à minha consciência já vazia.
KENSINGTON GARDENS II
Não acredito mais nesse poder
das imagens abstratas A solidão do
parque é um vazio
também na relva gasta da linguagem
*Poemas do livro “A moeda do tempo e outros poemas”, Língua Geral, 2009.