Dante Milano nasceu a 16 de junho de 1899, no Rio de Janeiro. Considerado um dos poetas mais representativos da terceira geração do Modernismo brasileiro, foi muito admirado por amigos como Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade e Augusto Frederico Schmidt. Recebeu, em 1988, o Prêmio Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras (ABL).

Dante Milano publicou seu primeiro poema, “Lágrima Negra”, em 1920, na revista carioca Selecta. Durante a década de 30 foi colaborador do suplemento “Autores e Livros”, de “A Manhã” e do “Boletim de Ariel”. Em 1935 organizou a “Antologia dos Poetas Modernos”, primeira compilação de poetas dessa fase. Seu primeiro livro, “Poesias”, foi publicado somente em 1948, e recebeu o Prêmio Felipe d’Oliveira. Nos anos seguintes trabalhou como tradutor, lançando, em 1953, “Três Cantos do Inferno”, de Dante Alighieri.

Seus poemas refletem muito sobre a morte, casando o pensamento à forma enxuta de seus versos – lírica seca e meditativa, avessa ao fácil artifício, onde o ritmo interior persegue em poemas curtos, com justeza e sem alarde, o sentido.

Dante Milano faleceu no dia 15 de abril de 1991, aos 91 anos, em Petrópolis, Rio de Janeiro.

IMAGEM

Uma coisa branca,
Eis o meu desejo.

Uma coisa branca
De carne, de luz,

Talvez uma pedra,
Talvez uma testa,

Uma coisa branca,
Doce e profunda,

Nesta noite funda,
Fria e sem Deus.

Uma coisa branca,
Eis o meu desejo,

Que eu quero beijar,
Que eu quero abraçar,

Uma coisa branca
Para me encostar

E afundar o rosto,
Talvez um seio,

Talvez um ventre,
Talvez um braço,

Onde repousar.
Eis o meu desejo,
Uma coisa branca
Bem junto a mim,

Para me sentir,
Para me esquecer,

Nesta noite funda,
Fria e sem Deus.

JARDIM PÚBLICO

Mundo estranho
De íris, lótus, ninféias,
Aves pernaltas,
Plantas aquáticas,
Esquisitos bichos.
Rumor de águas de todos os lados,
Um silêncio que enche os ouvidos,
Estátuas de fronte cansada,
Bancos onde se medita no suicídio,
Homens caminhando para o passado.

MENDIGO

Meu corpo é um andrajo
Apoiado a um bordão.

Em meio à estrada
Paro.
Além o sol beija a montanha.

Agradeço-te, Deus,
A esmola de mais um dia.

HORA DO CÉU

Esse fundo da tarde me apavora,
Esse sol morrendo,
Essas nuvens fugindo apressadas,
Fugindo para onde? fugindo de quê?
Que irá acontecer?
O mundo vai sumir?
Eu vou desaparecer?

Vem, amor, e me abraça.
Acalma, com voz suave, a minha doença.
E me ensina a rezar,
Como a um filho,
Uma oração que me faça perdoar,
Perdoar sem compreender,
Nesta hora em que o céu abafa a terra.

Sinto faltar-me a respiração
Sob o peso do céu.
Tenho vontade de fugir da paisagem
E ir-me esconder no seio de uma mulher,
Imensa mãe
De mãos grandes,
Ventre quente.

OS TRABALHOS DO MUNDO

Bate, coração do Mundo.
Bem escuto o teu ritmo,
Os saltos do sangue humano correndo pelas artérias
Do doloroso corpo mapa-múndi.

Os pés em marcha, as máquinas gesticulando.
A terra em seu labor de guerra eterna.

Ter de lutar
Por um acontecimento qualquer,
Pelo que outrora os sinos repicavam
E agora as sirenas uivam desvairadas,
Pela explosão de um sol
Brilhando no aço das armas
Dos homens com penachos das suas sombras no chão.
Marcha os heróis ou leva de prisioneiros?

ABSOLVIÇÃO

A água brota da rocha estéril
Por um milagre
Como o da Virgem que apareceu na gruta.

Límpida chuva cai sobre as ondas e as árvores
E se continuar essa aura que vem do ignoto
O mar abrirá passagem a nossos pés,
Os pássaros cantando entre as estrelas,
Cavalos saltando abismos,
Peixes voando na altura entre os pássaros seus irmãos.
Entre o céu e a terra não haverá mais separação,
E os homens, esquecendo as suas lutas,
Se elevarão cantando!
Mas só os que já morreram
E são dignos da paz espiritual.

VOZES ABAFADAS

O ruído vem de longe e quase não se escuta.
Passa no ar ou ruge dentro de nossos ouvidos?
Vem do centro da terra ou do terror das consciências?

São crianças chorando com medo da vida?
Soluços de mães que ignoram as causas?
Gritos alucinados de homens caídos sob as rodas do carro terrível?
São os últimos brados das pátrias esfareladas,
Os uivos do vento nas bandeiras das nações vencidas,
Ou no ventre do caos os vagidos do mundo futuro?

Cala, poesia,
A dor dos homens não se pode exprimir em nenhuma língua.
Talvez a exprimisse o ai da cabeça separada do corpo que rola
ensangüentada,
Talvez a escrevesse a mão hirta que no último gesto de horror largou
a espada,
Talvez a dissesse o grito sufocado, o pranto que salta, o suor frio, o
olhar esbugalhado…
Ante o ricto dos mortos compreendo que a dor não se exprime
Em língua nenhuma e ainda que os homens falassem uma só
língua.

AVE DE RAPINA

Imensamente se desenha ó pássaro
Que desceu de tão alto e vem tão baixo,
Roça no chão a sombra assustadora
E de novo se eleva, foge, some.
Vi desaparecer o rastro escuro
Da passagem terrível de uma vida
Ignorada dos homens e do mundo.
No mundo, apenas quer matar a fome.
Minha imaginação é como o giro
Lento e envolvente da ave de rapina
Que desce à terra em busca de alimento.
Agora chegam para o estranho pasto,
Pensamentos que vêm e vão à toa.
Trazidos e levados pelo vento.

REFLEXO

Esta tarde parece a última tarde.

Dentro de mim como num lago vejo
Um apagado ser, feito de nada.

Não sei o que a água escreve sem palavras.

A idéia que eu persigo imita o vôo
Lento de uma asa refletida na água
Mais nua e fria do que o céu cinzento.

A vida não tem fundo, ó vás alturas!

A vida quase que não é vivida.
E tudo vai ficando mais distante.

Cai a tinta da treva sobre o mundo.
Também dentro de mim tudo se apaga.
Some-se na água a sombra que eu cavava.

Esta noite parece a última noite.

SOMBRA NA ÁGUA

Descubro na água a forma que não morre
Nem se atinge. A procura, o encontro, a fuga…
O dorso da água me apaixona, eu sigo
O desenho sinuoso que evolui.
Só de fitar, a forma se retrai.

Rindo, nas margens, a água entreabre os lábios…

A água tem um sabor de pele nua,
Gosto de verme, e pesa como um seio.
A água se oculta entre os lençóis que as vestem.
Mas há recantos onde se desnuda
E vem à tona a sombra desfolhada
E ondulante de um corpo imaginário.

Ah, não fujas do olhar que te procura
No fundo em que se esvai o teu vestígio.
Eu adivinhei tua nudez
Que gera em volta frêmitos de espuma.

Ela me escuta: ocioso som de flauta…
Súbito, feito sátiro, de um salto
Mergulho tonto na água estupefata
Que se abre como cova – e é o nada da água
Que a mão quase sem tato acaricia.

*Poemas do livro “POESIAS – Dante Milano”, Editora Firmo, 1994.